Barroco Brasileiro I

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Arapongas - Paraná

"Que, por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar."
(Gregório de Matos Guerra)


Em nosso Barroco, o centro econômico, político e social é a Bahia. Expande-se a exploração do açúcar, que passa a ser a base de sustentação da colônia. Consolida-se o poder colonizador, que prospera cada vez mais e que será preciso defender da infiltração européia ( holandeses, franceses ). O colono familiariza-se com o lucro fácil, com a riqueza. Surgem as casas grandes e as senzalas, os primeiros escravos são importados da África e têm início as uniões entre índios, brancos e africanos, fazendo surgir uma nova sociedade.Vive-se na opulência e no luxo. O jogo é cultivado como diversão ociosa. Esta vida em pecado faz com que os colonos temam a Deus e seu dinheiro servirá também para a construção de capelas, igrejas, conventos e irmandades.Assim, na Bahia e em Pernambuco do século XVII, o Barroco do Açúcar, em que a literatura se destaca como principal atividade artística. Já em Minas Gerais e no século XVIII, desenvolveu-se o Barroco do Ouro, em que se realçam, quantitativa e qualitativamente, a arquitetura, as artes plásticas e a música. Uma característica marcante da pintura barroca é o efeito de ilusão buscado pelos artistas. Eles pintam cenas de elementos arquitetônicos ( colunas, escadas, balcões, degraus ) que dão uma incrível ilusão de movimento e ampliação de espaço, chegando, em alguns casos, a dar a impressão de que a pintura é realidade e a parede, de fato, não existe. Um bom exemplo brasileiro desse ilusionismo é o teto pintado por Manuel da Costa Ataíde na Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto.Na arquitetura barroca, o emprego freqüente da coluna sinuosa é uma forma de romper com a rigidez das linhas retas da arquitetura renascentista, inspirada na antigüidade grega e romana. Colunas, altares e púlpitos eram recobertos com espirais, flores, monstros e anjos, num jogo de cores e formas que, juntando pintura, escultura e arquitetura, provocava um grande impacto visual. Na metade do século XVIII, o Barroco já tinha entrado em declínio na Europa. Mas em algumas regiões do Brasil, especialmente em Minas Gerais, ele teve um último desenvolvimento, estimulado pela riqueza gerada pela descoberta de ouro e pedras preciosas. O artista mais original do barroco brasileiro foi Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho ( 1730 - 1814 ). Arquiteto, entalhador e escultor, as obras do Aleijadinho constituem, até hoje, um dos pontos mais altos da arte brasileira. Na pintura, destaca-se Manuel da Costa Ataíde (1762 - 1837).


(pesquisa artculturalbrasil)
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O BARROCO BRASILEIRO - I

Como já vimos em nossas pesquisas sobre o Quinhentismo,não se pode falar em uma literatura "do" Brasil, como característica do país naquele período, mas sim em literatura "no" Brasil - uma literatura ligada ao Brasil, mas que denota as ambições e as intenções do homem europeu.

O Barroco no Brasil tem seu marco inicial em 1601, com a publicação do poema épico "Prosopopéia", de Bento Teixeira, que introduz definitivamente o modelo da poesia camoniana em nossa literatura. Estende-se por todo o século XVII e início do XVIII.

Embora o Barroco brasileiro seja datado de 1768, com a fundação da Arcádia Ultramarina e a publicação do livro "Obras", de Cláudio Manuel da Costa, o movimento academicista ganha corpo a partir de 1724, com a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos. Este fato assinala a decadência dos valores defendidos pelo Barroco e a ascensão do movimento árcade. O termo barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos de 1600 e início dos anos de 1700. Além da literatura, estende-se à música, pintura, escultura e arquitetura da época.

Antes do texto de Bento Teixeira, os sinais mais evidentes da influência da poesia barroca no Brasil surgiram a partir de 1580 e começaram a crescer nos anos seguintes ao domínio espanhol na Península Ibérica, já que é a Espanha a responsável pela unificação dos reinos da região, o principal foco irradiador do novo estilo poético.

O quadro brasileiro se completa no século XVII, com a presença cada vez mais forte dos comerciantes, com as transformações ocorridas no Nordeste em conseqüência das invasões holandesas e, finalmente, com o apogeu e a decadência da cana-de-açúcar.

Uma das principais referências do barroco brasileiro é Gregório de Matos Guerra, poeta baiano que cultivou com a mesma beleza tanto o estilo cultista quanto o conceptista (o cultismo é marcado pela linguagem rebuscada, extravagante, enquanto o conceptismo caracteriza-se pelo jogo de idéias, de conceitos. O primeiro valoriza o pormenor, enquanto o segundo segue um raciocínio lógico, racionalista).

Na poesia lírica e religiosa, Gregório de Matos deixa claro certo idealismo renascentista, colocado ao lado do conflito (como de hábito na época) entre o pecado e o perdão, buscando a pureza da fé, mas tendo ao mesmo tempo necessidade de viver a vida mundana. Contradição que o situava com perfeição na escola barroca do Brasil.

Antônio Vieira - Se por um lado, Gregório de Matos mexeu com as estruturas morais e a tolerância de muita gente - como o administrador português, o próprio rei, o clero e os costumes da própria sociedade baiana do século XVII - por outro, ninguém angariou tantas críticas e inimizades quanto o "impiedoso" Padre Antônio Vieira, detentor de um invejável volume de obras literárias, inquietantes para os padrões da época.

Politicamente, Vieira tinha contra si a pequena burguesia cristã (por defender o capitalismo judaico e os cristãos-novos); os pequenos comerciantes (por defender o monopólio comercial); e os administradores e colonos (por defender os índios). Essas posições, principalmente a defesa dos cristãos-novos, custaram a Vieira uma condenação da Inquisição, ficando preso de 1665 a 1667.

A obra do Padre Antônio Vieira pode ser dividida em três tipos de trabalhos: Profecias, Cartas e Sermões.

As Profecias constam de três obras: "História do futuro", "Esperanças de Portugal" e "Clavis Prophetarum". Nelas se notam o sebastianismo e as esperanças de que Portugal se tornaria o "quinto império do Mundo". Segundo ele, tal fato estaria escrito na Bíblia. Aqui ele demonstra bem seu estilo alegórico de interpretação bíblica (uma característica quase que constante de religiosos brasileiros íntimos da literatura barroca). Além, é claro, de revelar um nacionalismo megalomaníaco e servidão incomum.

O grosso da produção literária do Padre Antônio Vieira está nas cerca de 500 cartas. Elas versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda, sobre a Inquisição e os cristãos novos e sobre a situação da colônia, transformando-se em importantes documentos históricos.

O melhor de sua obra, no entanto, está nos 200 sermões. De estilo barroco conceptista, totalmente oposto ao Gongorismo, o pregador português joga com as idéias e os conceitos, segundo os ensinamentos de retórica dos jesuítas. Um dos seus principais trabalhos é o "Sermão da Sexagésima", pregado na capela Real de Lisboa, em 1655. A obra também ficou conhecida como "A palavra de Deus". Polêmico, este sermão resume a arte de pregar. Com ele, Vieira procurou atingir seus adversários católicos, os gongóricos dominicanos, analisando no sermão "Por que não frutificava a Palavra de Deus na terra", atribuindo-lhes culpa.

No século XVIII, o Brasil presenciou o surgimento de uma literatura própria a partir dos escritores nascidos na colônia, quando as primeiras manifestações valorizando a terra surgiram. Contexto Histórico Os fatos históricos fundamentais da época foram a Primeira invasão holandesa, que ocorreu na Bahia, em 1624, e a Segunda, em Pernambuco, em 1630, que perdurou até 1654. As invasões aconteceram na região que concentrava a produção açucareira.
A produção literária não foi favorecida nesse período, pois a disputa pelo poder no Brasil era evidente e chamava toda a atenção. O Barroco surgiu nesse contexto como fruto de esforços individuais, quando os modelos literários portugueses chegaram ao Brasil. A arte que se desenvolveu com mais força foi a arquitetura, mas a partir da segunda metade do século as artes sofreram impulso maior. Costuma-se considerar a publicação da obra Prosopopéia (1601), de Bento Teixeira, como o marco inicial do Barroco no Brasil. Esse é um poema épico, de estilo cancioneiro que procura imitar Os Lusíadas. Os autores barrocos que mais se destacaram são: - Gregório de Matos (na poesia); - Pe. Vieira (na prosa); - Bento Teixeira; - Frei Manuel de Santa Maria Itaparica; - Botelho de Oliveira; - Sebastião da Rocha Pita; - Nuno Marques Pereira.
Gregório de Matos (1633? – 1696)
Gregório de Matos é o maior poeta barroco brasileiro, sua obra permaneceu inédita por muito tempo, suas obras são ricas em sátiras, além de retratar a Bahia com bastante irreverência, o autor não foi indiferente à paixão humana e religiosa, à natureza e reflexão. As obras desse escritor são divididas de acordo com a temática: poesia lírica religiosa, amorosa e filosófica. - A lírica religiosa: explora temas como o amor a Deus, o arrependimento, o pecado, apresenta referências bíblicas através de uma linguagem culta, cheia de figuras de linguagem. Veja que no exemplo a seguir o poeta baseia-se numa passagem do evangelho de S. Lucas, quando Jesus Cristo narra a parábola da ovelha perdida e conclui dizendo que “há grande alegria nos céus quando um pecador se arrepende”: A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado, da vossa alta clemência me despido; porque, quanto mais tenho delinqüido, vos tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto pecado, a abrandar-vos sobeja um só gemido: que a mesma culpa, que vos há ofendido vos tem para o perdão lisonjeado. Se uma ovelha perdida, e já cobrada glória tal e prazer tão repentino vos deu, como afirmais na sacra história, eu sou Senhor, a ovelha desgarrada, cobrai-a; e não queirais, pastor divino, perder na vossa ovelha, a vossa glória. (Gregório de Matos) - A lírica amorosa: é marcada pela dualidade amorosa entre carne/espírito, ocasionando um sentimento de culpa no plano espiritual. - A lírica filosófica: os textos fazem referência à desordem do mundo e às desilusões do homem perante a realidade. Em virtude de suas sátiras, Gregório de Matos ficou conhecido como “O boca do Inferno”, pois o poeta não economizou palavrões nem críticas em sua linguagem, que além disso era enriquecida com termos indígenas e africanos. Eis um exemplo dos muitos “retratos” que Gregório de Matos compôs: Soneto A cada canto um grande conselheiro, Que nos quer governar cabana, e vinha, Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro. Em cada porta um freqüentado olheiro, Que a vida do vizinho, e da vizinha Pesquisa.
Escuta, espreita, e esquadrinha, Para levar à Praça, e ao Terreiro. Muitos mulatos desavergonhados, Trazidos pelos pés os homens nobres, Posta nas palmas toda picardia. Estupendas usuras nos mercados, Todos, os que não furtam, muito pobres, E eis aqui a cidade da Bahia. Nesse texto o poeta expõe os personagens que circulavam pela cidade de Salvador - conhecida como Bahia- desde as mais altas autoridades até os mais pobres escravos.

A literatura barroca no Brasil: ética e psicanálise - II
Introdução


A Ética que rege tanto a teoria quanto a intervenção clínica psicanalítica não busca o estabelecimento de parâmetros determinando o correto ou o ideal, ou seja, não visa a um bem comum estabelecido moralmente. Ao ideal opõe-se o real e este impõe-se ao sujeito. Desta forma, a ética psicanalítica visa focalizar os impasses, a desmedida que vigora na relação do homem com sua ação.

Aquilo que é impossível de ser dito, de alguma forma poderá ser mostrado, sob formas de expressões estéticas. A arte é tida como um meio para se abordar o inapreensível. Neste trabalho estarei privilegiando a literatura barroca no Brasil que, assim como a ética psicanalítica, é um campo fecundo de acolhimento do heterogêneo. Há um acolhimento de antíteses sem exclusões e sem sínteses denunciando, assim, a impossibilidade de se fechar com um sentido as aflições do existir humano.


“Mastigas diariamente as palavras
como se elas fossem um bálsamo para a alma.
As palavras te governam e te configuram
Delimitam as fronteiras de tua solidão
Os caminhos da eternidade e do adeus.
As palavras assinalam o momento de tua morte
E te ensinam a abrir a porta onde não existe porta”
Francisco Carvalho.

Justificativa

Aqui apresentaremos aspectos gerais da literatura barroca, principalmente no Brasil, relacionando-a à ética da psicanálise. O interesse está em mostrar o barroco não só como um estilo artístico e literário, mas também como uma expressão que perdura em outras épocas e que guarda íntima relação a aspectos presentes na experiência psicanalítica.

De início, abordaremos a literatura barroca no Brasil, no sentido de mostrar as principais características desse tipo de expressão e alguns dos principais representantes da época, bem como a repercussão do estilo literário barroco utilizado por alguns outros artistas do mundo contemporâneo.

Situaremos fragmentos da história do estilo barroco no ocidente, incluindo-se a questão do barroco no Brasil e sua origem; em seguida, as heranças e limites cronológicos da literatura barroca e uma breve exposição das principais características da linguagem barroca; Destaques aos que são considerados os principais representantes da literatura barroca no Brasil e a utilização do estilo literário barroco na atualidade; apresentação de alguns autores contemporâneos que utilizam características da linguagem barroca em seus textos.

Sucintamente, destacaremos questões relativas à ética psicanalítica, conforme as idéias de Freud e Lacan.

Encerraremos com propostas de intervenção e possibilidades de continuidade do estilo barroco no mundo contemporâneo, não somente na literatura, mas em suas várias outras representações artísticas, mostrando que o barroco pode ser visto como um estilo de vida.


1 - O momento histórico do barroco e sua origem
1.1 - O momento histórico do Barroco


O barroco foi um estilo que se manifestou em várias formas de arte na América Latina e na Europa Ocidental, predominou da metade do século XVI ao final do século XVII. Quaisquer que sejam as diferenças nacionais ou individuais na expressão do fenômeno barroco, há entre as variadas manifestações, nos mais diversos lugares, atributos comuns que fazem dele um fenômeno universal sobretudo, durante o século XVII.

O período histórico no qual o movimento barroco se desenvolve apresenta características de um contexto de autoritarismo político, marcado pelo absolutismo, que como sabemos, é o sistema político baseado na centralização absoluta do poder nas mãos do rei. Vive-se um momento de expansão, com a revolução comercial, cuja política econômica, o Mercantilismo, se baseava no metalismo, na balança comercial favorável e no acúmulo de capitais. Ocorre também, a luta de classes onde a burguesia, por deter forte poder econômico, pressionava politicamente a nobreza e o Rei, a fim de participar das decisões políticas do Estado Absolutista. Concomitantemente, a arte barroca eclode desse estado de turbulência, mudanças radicais e crises religiosas.

O barroco na arte marcou um momento de crise espiritual da sociedade européia. O homem do século XVII era dividido em duas mentalidades, duas formas diferentes de ver o mundo. Por isso o estilo barroco é um dos mais complexos que podem ser estudados na literatura brasileira.

O homem barroco estaria diante desse dilema entre o céu e a terra, o pecado e a salvação, a mística e a sensualidade, a santidade e o liberalismo, só havendo para ele uma saída: acolher os pólos opostos. Sua alma ficou assim, uma alma agônica, polarizada entre opostos, dilemática, paradoxal. Toda literatura barroca testemunha esse estado de alma.

Convivendo com o sensualismo e os prazeres materiais trazidos pelo Renascimento, os valores espirituais tão fortes na Idade Média voltaram a exercer forte influência sobre a mentalidade da época. Uma nova onda de religiosidade foi trazida pela Contra-reforma e pela fundação da Companhia de Jesus. O que decorreu daí foram naturalmente sentimentos contraditórios. A arte barroca representa essa contradição, oscilando entre o clássico e pagão e o medieval e cristão, apresentando-se como uma arte indisciplinada.

Assim, valores como o humanismo, o gosto pelas coisas terrenas, as satisfações mundanas e carnais, trazidos pelo Renascimento, que era caracterizado pelo racionalismo e equilíbrio, imbricam a valores espirituais trazidos pela contra-reforma, com idéias medievais, teocêntricas e subjetivas.

Politicamente, o homem da época sentia-se oprimido economicamente, contudo, sentia-se livre para enriquecer com a possibilidade de ascensão social.

No plano espiritual, igualmente se verificaram contradições: ao lado das conquistas e dos valores do renascimento e do mercantilismo - que possibilitou a aquisição de bens e prazeres materiais - a contra-reforma procurava restaurar a fé cristã medieval e estimular a vida e os valores espirituais.

Por esse conjunto de razões é que na linguagem barroca, tanto na forma quanto no conteúdo, se verifica uma rejeição constante na visão ordenada das coisas. Os temas são aqueles que refletem os estados de tensão da alma humana, tais como vida e morte, matéria e espírito, amor platônico e amor carnal, pecado e o perdão. A construção da linguagem barroca acentua e amplia o sentido trágico desses temas, ao fazer o uso de uma linguagem de difícil acesso, rebuscada, cheias de inversões e de figuras de linguagem. Outros temas que são facilmente encontrados são o sobrenatural, castigos, misticismo e arrependimento.

A época da Contra-reforma e do barroco é principalmente marcada por uma profunda dualidade. Por um lado, é o desdobramento do humanismo clássico e do Renascimento, com seus apelos ao racionalismo, ao prazer, ao “carpe diem” (do latim, “aproveite o dia”). Por outro lado, o homem é pressionado pela igreja católica e pelo protestantismo mais vigoroso a um regresso ao teocentrismo medieval, à postura estóica, à renúncia aos prazeres, à mortificação da carne e à observância plena do “amar a Deus sobre todas as coisas”, princípio capitular do teocentrismo medieval.

Em síntese, o homem do século XVII foi compelido a acolher o Teocentrismo Medieval e o Antropocentrismo Clássico. E assim se manifesta Afrânio Coutinho:

“O homem do barroco é um saudoso da religiosidade medieval e, ao mesmo tempo, um seduzido pelas solicitações terrenas e valores mundanos, amor, dinheiro, luxo, posição que a renascença e o humanismo puseram em relevo. Desse dualismo nasceu a arte barroca”.

É notório que, se a literatura é a expressão do homem e de seu tempo, o estilo barroco haveria de refletir as angústias, as incertezas e o desespero daqueles que viveram essa época. Fruto da síntese de duas mentalidades, a medieval e a renascentista, o homem do século XVII era um ser contraditório, tal qual a arte pela qual se expressou.


1.2 – Divergências de origem


A origem da palavra barroco tem suscitado muitas divergências. Dentre as várias posições, a mais aceita é de que a palavra se teria originado do vocabulário espanhol barrueco, vindo do português arcaico e usado pelos joalheiros desde o século XVI, para designar um tipo de “pérola irregular” e de formação defeituosa, aliás, até hoje conhecida por essa mesma denominação. Depois, a etimologia da palavra barroco teria sua origem na escolástica medieval, sob a forma baroco, designando um tipo de raciocínio sem sentido, falso.

Os críticos e historiadores de arte definiam como uma estética de decadência, uma característica subsequente ao Renascimento. Era em suma, uma forma degenerada da arte renascentista, expressa pela perda do senso de clareza.

A posição mais recente, que se abre com os estudos de Heinrich Wolfflin (1864-1945) [2] tende a ver no barroco uma constante universal na arte, expressiva dos períodos marcados por graves conflitos espirituais, e cuja essência é a irregularidade, o retorcimento, o exagero e Heinrch Wolfflin logrou formular em termos definitivos a reinterpretação do estilo barroco em arte. Depois dele a arte ficou revalidada, não mais se concebendo como uma forma degenerada, mas sim, um período peculiar da história da cultura, com valor estético e significado próprio.


2 - Heranças do barroco no Brasil e limites cronológicos da literatura barroca brasileira
2.1 - Heranças do barroco no Brasil:


O barroco foi esse movimento estético criado na Espanha no século XVI, quando Portugal estava sob o poder Espanhol e contra ele reagia. A luta era política pela restauração de Portugal, mas naturalmente se estendia a tudo que fosse de cunho espanhol, como o barroco, de espírito contrário a tradição artística lusa.

Enquanto isso, os brasileiros nada tinham contra os espanhóis, por isso os escritores daqueles séculos absorveram o espírito espanhol: Anchieta, Gregório de Matos, Padre Antônio Vieira, Botelho de Oliveira e outros.

No Brasil do século XVIII, a adoção do estilo barroco vincula-se certamente com o descobrimento de minas e a conseqüente riqueza de algumas camadas da população. O barroco brasileiro coincidiu com o nascimento da consciência nacional, ao mesmo tempo em que a favoreceu. Contando com o apoio dos protetores das artes - paróquias, confrarias e associações religiosas - tornou-se a primeira possibilidade de expressão artística do país.

A Bahia é considerada essencialmente barroca. O barroco brasileiro, criado pelos jesuítas da Contra-reforma no século XVI, é o espírito da conciliação e da fusão dos contrários. A Bahia também nasceu nesse século e adquiriu assim, todo o espírito barroco, fundiu brancos, negros, fez uma religião mista, a vida social, a comida, a música; uma linguagem.

O barroco tem a vantagem de ser um termo único, além de traduzir, por si próprio as características estéticas e estilísticas que a época encerra. De maneira geral, o barroco é um estilo identificado com uma ideologia, que busca traduzir um conteúdo espiritual.


2.2 - Limites cronológicos da literatura barroca no Brasil:


Fica difícil estabelecer limites para uma escola literária, já que as idéias vão mudando com o tempo e as gerações, gradual e lentamente. Mas, didaticamente, considera-se que o barroco surgiu no Brasil com a obra Prosopopéia de 1601, poema épico de autoria do português, radicado no Brasil, Bento Teixeira Pinto[3]. Sendo esta, a primeira obra dita literária, escrita entre nós.

O limite final para essa escola foi o ano de 1768, com a publicação de Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa, que, no entanto, seria um poeta árcade. Porém, como o barroco no Brasil só foi mesmo reconhecido e praticado em seu final, entre 1720 e 1750, quando foram fundadas várias academias literárias[4], desenvolveu-se uma espécie de barroco tardio nas artes plásticas, o que resultou na construção de igrejas de estilo barroco durante todo o século XVIII. As obras de Aleijadinho são o grande exemplo desse barroco tardio.


3.0 - Principais características da linguagem barroca


As obras de arte têm como ponto de partida a utilização da realidade concreta do mundo. Os barrocos valorizam a percepção sensorial da realidade, empregam freqüentemente palavras que designam cores (visão), perfumes (olfato), sensações táteis (tato), ou seja, buscam refletir a dimensão sensorial do mundo.

No que concerne ao estudo da linguagem figurada, irei dividí – lo em dois grandes grupos: as figuras que são tipos especiais de construção do pensamento e os tropos que são palavras ou expressões usadas em outro sentido que não o próprio.

Essa apreensão da realidade pelos sentidos expressa-se sobretudo através do emprego de muitas figuras de linguagem: antíteses, paradoxos, anáforas, hipérbatos, anadiploses. E também de alguns tropos como as metáforas e as hipérboles.

Apresentarei aqui, características da fraseologia barroca que se valem de uma linguagem figurada para a obtenção dos efeitos pretendidos, tais como: o requinte formal, o conflito espiritual, o culto do contraste, a efemeridade do tempo e Carpe diem, o paganismo, o dualismo, o cultismo ou gongorismo, a linguagem rebuscada, o conceptismo e a ironia.

Assim, dentre essas características da linguagem barroca algumas merecem especial atenção pela sua peculiaridade e pelo uso que foi sendo feito de algumas delas em escolas posteriores.

O Requinte formal revela o nível lingüístico altamente sofisticado dos textos barrocos.
Apresentam construções sintáticas elaboradas, vocabulários de nível elevado. O barroco literário foi uma arte da aristocracia e esse refinamento era desejado por seu público consumidor, porque lhe conferia status. Esse requinte formal pode ser verificado, por exemplo, no poema de Manuel Botelho de Oliveira, “Ponderação do rosto e olhos de Anarda”:


“Nos olhos e nas faces mais galhardas
Ao céu prefere quando inflama os raios,
E prefere ao jardim,
Se as flores aguarda:

Enfim, dando ao jasmim e ao céu desmaios,
O céu ostenta um sol, dois sóis Anarda,
Um maio o jardim logra; ela dois maiôs” [5].


O conflito espiritual era latente no homem barroco, que se sentia dilacerado e angustiado diante da alteração dos valores, dividindo-se entre o mundo espiritual e o mundo material. As figuras que melhor expressam esse estado de alma são a antítese e o paradoxo, exemplarmente demonstrado por Gregório de Matos em “A Brevidade dos gostos da vida, em contemplação dos mais objetos”:


“Nasce o Sol; e não dura mais que um dia:
Depois da Luz, se segue a noite escura:
Em Tristes sombras morre a Formosura;
em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, Por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto, da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza;
na Formosura, não se dê constância:
E na alegria, sinta-se a tristeza.

Comece o mundo, enfim, pela ignorância;
pois tem qualquer dos bens, por natureza,
a firmeza somente na inconstância” [6].


O culto do contraste está presente nas idéias barrocas confrontando elementos como amor e sofrimento, vida e morte, juventude e velhice, ascetismo e mundaneidade, carne e espírito, religiosidade e erotismo, realismo e idealismo, naturalismo e ilusionismo, céu e terra, pecado e perdão numa tentativa de acolher pólos opostos até aqueles então considerados de impossível convivência: a razão e a fé.

O espírito barroco, afeito ao espírito trágico, é cabalmente expresso no célebre dilema do 3º ato de Hamlet, de Shakespeare: “To be or not to be, that is the question”. (“Ser ou não ser, eis a questão...”) [7].

Tem-se, nesta mesma linha, a vasta utilização da efemeridade do tempo e carpe diem: o homem barroco tem consciência de que a vida terrena é passageira, e por isso, é preciso pensar na salvação espiritual. Mas, já que a vida é passageira, sente ao mesmo tempo, desejo de gozá-la antes que acabe, o que resulta num sentimento contraditório, já que gozar a vida implica em pecar, e se há pecado, não há salvação.

Neste contexto, é possível ilustrar tal característica a partir do poema de Gregório de Matos, “Pretendendo o poeta moderar o excessivo sentimento de Vasco de Sousa de Paredes, na morte da dita sua filha”.


“Para que é mais idade, ou mais um ano
Em quem, por privélegio e natureza,
Nasceu flor, a que um sol faz tanto dano!?

Nossa prudência, pois, em tal dureza
Não sinta a dor, e tome o desengano
Que um dia é eternidade da beleza” [8].


Assim, como tudo na vida, a beleza também é efêmera e ao mesmo tempo comporta a infinitude em seu momento. O texto se serve de imagens plásticas para mostrar isso: “que um dia é eternidade da beleza”. Não recusa a finitude, lembrando que o tempo atua sobre nós conduzindo-nos à decadência. Essa imagem que vai da “flor” ao “dano” põe ante os olhos do leitor, a intensidade e transitoriedade da beleza e da vida.

O paganismo também está presente como uma característica da linguagem barroca que aparece em alguns textos buscando um traço do Classicismo e da Cultura greco-romana, no qual, os deuses da mitologia pagã aparecem para representar um sentimento ou um tema abstrato qualquer, como podemos verificar no poema, “Expressões amorosas a üa dama a quem queria”, que menciona Adónis(ou Adonai) que é um ente mitológico representante da grande beleza e a vaidade:


“Enquanto com gentil descortesia,
o ar, que fresco Adónis te namora,
te espalha a rica trança brilhadora,
quando vem passear-te pela fria” [9]


Conforme foi exposto acima, o dualismo encontrado na linguagem barroca, se desenvolve em torno da transitoriedade da vida, da fulgacidade das coisas e dos sentimentos contraditórios que envolvem a natureza humana, inexoravelmente confrontada à radicalidade da falta, da perda conforme tão bem explicita Gregório de Matos em “Defendendo o Bem Perdido”:


“O bem, que não chegou a ser possuído
perdido causa tanto sentimento,
que faltando-lhe a causa do tormento,
faz ser maior tormento o padecido

Sentiu o bem logrado já perdido,
mágoa será do próprio entendimento:
porém, o bem que perde em pensamento
não deixa o outro bem restituído”[10].


Destaca-se também no estilo barroco, o jogo de palavras, Cultismo ou Gongorismo que receberam essas denominações na Península Ibérica, e em colônias ultramarinas. Trata-se da ênfase no aspecto do barroco voltado para o rebuscamento da forma, para a ornamentação exagerada do estilo. O termo cultismo deriva da obsessão barroca pela linguagem culta, erudita, e o gongorismo alude ao autor espanhol Luís de Gongora[11], expoente maior desse procedimento literário, criador de uma verdadeira escola que tem como seguidores, entre nós, Manuel Botelho de Oliveira e, em alguns momentos, o próprio Gregório de Matos Guerra.

O aspecto exterior imediatamente visível no Cultismo ou Gongorismo é o abuso no emprego de figuras de linguagem: metáforas, antíteses, hipérboles, hipérbatos, anáforas, anadiploses, paronomásias, quiasmos e sonoras.

O cultismo explora, também através do jogo de palavras, efeitos sensoriais, tais como cor, forma, volume, sonoridade, imagens violentas e fantasiosas, enfim, recursos que sugerem a superação dos limites da realidade, ou seja, uma percepção sensorial da realidade:

“A uns mártires penduravam pelos cabelos, ou por um pé, ou por ambos, ou pelos dedos, polegares, e assim, no ar, despidos, batiam e martelavam com tal força e continuação, os cruéis e robustos algozes (carrascos), que ao princípio açoitavam os corpos, depois desfiavam as mesmas chagas (feridas) , ou uma chaga até que não tinha já que açoitar nem ferir. A outros estirados e desconjuntados no ecúleo (instrumento de tortura), ou estendidos na catasta, (cadafasto, em forma de leito, feito em grades, em que se torturavam os mártires) aravam os membros com pentes e garfos de ferro, a que propriamente chamavam escorpiões, ou metidos debaixo de grandes pedras de moinho, lhes espremiam como um cardar (pentear) o sangue, e lhe moíam e imprensavam os ossos, até ficarem com uma pasta confusa, sem figura, nem semelhança do que dantes eram. A outros cobriam todos de pez (breu, piche), resina e enxofre, e ateando-lhes o fogo, os faziam arder em pé como tochas ou luminárias, nas festas dos ídolos, esforçando-os para este suplício como lhes dar a beber chumbo derretido[12].

Neste fragmento do discurso, podemos perceber claramente a tentativa de Pe. Vieira de fazer o leitor sentir o que ele descreve, como uma forma de persuadir seus ouvintes a não se envolverem com idéias de reforma religiosa (o protestantismo). Para isso, toma como exemplo a persistência religiosa dos mártires da Igreja Católica e descreve com extrema figuração como eram torturados esses mártires.

Essa supervalorização da forma na maneira de exprimir um conteúdo é mais comum na poesia. Observe no fragmento seguinte, do poema “Pecador contrito aos pés de Cristo crucificado” o extremo cuidado formal que leva o poeta a elaborar um esquema, no qual o final de cada verso repete-se no início do seguinte:


Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade;
verdade é, meu Senhor, que hei delinqüido,
delinqüido vos tenho, e ofendido;
ofendido vos tem minha maldade.[13]


Inversamente, o conceptismo ocorre sobretudo na prosa. Corresponde ao jogo de idéias à organização da frase com uma lógica que visa ensinar e convencer. É a supervalorização do raciocínio agudo, como bem o demonstra o fragmento a seguir:

“Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelhos e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há de existir mister luz, há mister espelho, e há mister olhos”[14].

Gregório de Matos vale-se também do conceptismo nos poemas. “A Jesus Cristo nosso Senhor” é um excelente exemplo disso:


“Pequei, Senhor: mas não porque hei pecado,
da nossa alta Piedade me despido:
antes, quanto mais tenho delinqüido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.
(...)
Eu sou, Senhor, Ovelha desgarrada;
cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino
perder na vossa Ovelha a vossa glória” [15].
Conforme comentam Faraco e Moura a propósito do poema:


“Se pecou ele é a ovelha desgarrada do rebanho; o pecado não deve ser somente motivo de castigo, mas razão para que o Pastor Divino se empenhe em recobrar sua “ovelha”. Para tanto deve perdoar-lhe o pecado. O poeta audaciosamente, dá um conselho a Cristo: que ele não queira perder a glória e infinita bondade que é a capacidade divina de perdoar. Caso contrário, deixando perder-se, perderá com ele a glória do perdão” [16].

Já a Ironia, do grego cionéia, ‘interrogação’ [17] , outra característica bastante explorada na linguagem barroca” consiste em dizer o contrário do que está pensando ou em questionar, satirizar certo tipo de comportamento com a intenção de ridicularizar, de dar ênfase a algum aspecto passível de crítica. De Gregório de Matos temos o poema endereçado “Aos Sres. Governadores do mundo em seco da cidade Bahia e seus costumes”:


“A cada canto um grande Conselheiro,
que nos quer governar cabana e vinha:
Não sabem governar sua cozinha,
e querem governar o Mundo inteiro!” [18].


Conforme se comentou anteriormente a literatura barroca vale-se também de algumas figuras de linguagem e tropos, sendo os mais fundamentais para o entendimento dessa literatura, que segue logo abaixo.

A antítese que significa do grego anti, ‘contra’ + thesis, ‘afirmação’[19], é uma figura de contraste que consiste no emprego de palavras numa oração ou período que se opõem quanto ao sentido: bem e mal, branco e preto, claro e escuro. É a figura mais comum do barroco, pois reflete a contradição enfrentada pelo homem da época, seu dualismo e a luta de forças opostas que o arrastam.

Aqui novamente recorremos a Gregório de Matos em “Defendendo o bem perdido” para ilustrar essa figura de linguagem:


“O bem, que não chegou ser possuído,
perdido causa tanto sentimento,
que faltando-lhe a causa do tormento,
faz ser maior tormento o padecido.” [19]

Infalível será ser homicida
o bem, que sem ser mal, motiva o dano;
o mal, que sem ser bem apressa a morte” [20].


O paradoxo figura de linguagem mais radical que a antítese, encontra-se freqüentemente presente na literatura barroca; poderia ser definido como emprego de idéias numa oração ou período que se opõe quebrando a lógica esperada, ou seja, promovendo uma apreensão da realidade mais pela via dos sentidos.

Referindo-se o paradoxo a um tipo de pensamento bastante valorizado, para indicar uma modalidade de formulação que é muito próxima às formulações do inconsciente, dado que nestas, a convivência de valores opostos revela a complexidade do funcionamento psíquico, abordarei esta figura de linguagem como tendo valor central para a designação do que poderíamos chamar de espírito barroco. A convivência e mesmo reversão dos opostos é magistralmente expressa neste fragmento do mestre Gregório de Matos:

“Ardor em firme coração nascido; Pranto por belos olhos derramados; Incêndio em mares de água desfarçado; Rio de neve em fogo convertido” [21].

A hipérbole que provém do grego hyperbolè, ‘lançar sobre’ [22]. É um tropo também conhecido como intensificação. Consiste na ênfase resultante do exagero deliberado, quer no sentido negativo, quer no positivo. É uma forma de exagerar a verdade, mas respeitando a beleza, seja por amplificação, seja por atenuação. É o que ocorre em expressões cotidianas como “morreu de rir”, “morto de fome”, “já te disse quatrocentas bilhões de vezes...”, ou em construções literárias, tendo, por exemplo, o fragmento do poema de Gregório de Matos:

“rios te correrão dos olhos se chorares ...” [23]

Temos também uma notória utilização da hipérbole no poema “Mundo incerto” de D. Franscisco Manuel de Melo do qual transcrevo uma estrofe:

“Eis aqui mil caminhos. Por ventura
Qual destes leva a gente ao povoado?
Todos vão sós, só este vai trilhando;
Mas se, por ser trilhado, me assegura?

Não, que desde o princípio há que lhe dura
Do erro este costuma ao mundo dado:
Ser aquele caminho mais errado
O que é demais passage e fermosura” [24].


A hipérbole traduz a grandiosidade, a ostentação do mundo barroco. Ela engrandece ou diminui exageradamente a verdade das coisas. “Anarda passando o Tejo em uma barca” de Botelho Oliveira, bem o demonstra:


“meu peito também, que chora
de Anarda ausências perjuras,
o pranto em rio transforma
o suspiro em vento muda” [25].


Outro tropo que merece ser comentado sua na literatura barroca é a metáfora, que provém do grego meta: ‘mudança’, + phora: ‘transporte’. Trata-se de uma figura de palavra em que se emprega um termo por outro, mantendo-se entre eles uma relação de semelhança; é uma espécie de “comparação abreviada”, como em “Seus olhos são esmeraldas” isto é, seus olhos são verdes. A metáfora foi assim definida por Aristóteles: “consiste em transportar para uma coisa o nome da outra (...) uma espécie de comparação, a qual, falta a locução comparativa”. [26]

São tantos os poemas que demonstram sua utilização. Aqui optei por ilustrá-la com “Dos desenganos da vida humana”, novamente de Gregório de Matos:


“É a vaidade, Fábio, nesta vida (1)
Rosa, que de manhã lisonjeada, (2)
Púrpuras mil, com ambição dourada,(3)
Airosa rompe, arrasta presumida.(4)

É planta, de que abril favorecida, (5)
Por mares de soberba desatada, (6)
Florida galeota empavesada, (7)
Sulca ufana, navega destemida. (8)

É nau enfim, que em breve ligeireza, (9)
Com presunção de Fênix generosa,(10)
Galhardias apresta, alentos preza: (11)

Mas ser planta, ser rosa, ser nau vistosa (12)
De que importa, se aguarda sem defesa (13)
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa? (14)” [27].


O próprio título do soneto, “Dos Desenganos da vida humana”, metaforicamente, alude ao emprego intensivo da metáfora. O poema se entretece a partir de três metáforas da vaidade: rosa, planta, nau (navio), elementos que tem duração efêmera, ainda que se a suponha eterna. Primeiramente, são mostradas as qualidades de cada um desses elementos metafóricos. Como a rosa, a vaidade “rompe airosa” (elegante); como a planta favorecida pelo mês de abril (quando é primavera na Europa), ela segue rapidamente feito uma “galeota empavesada” (embarcação enfeitada); como uma nau ligeira, preza alentos e galhardias (elogios e elegâncias).

Observe que as metáforas são colocadas nos versos 2, 5 e 9 e, após retomadas nos versos 12 a 14, quando, no último terceto, o poeta as dispõe em ordem decrescente, inversa: a penha (pedra) destrói a nau, assim como o ferro (instrumento de corte qualquer) destrói a planta e a tarde (o tempo que passa) destrói a rosa.

A conclusão a que se chega, portanto, é que a vaidade é frágil e efêmera.


“A metaforização intensiva do texto barroco estabelece, quase sempre, uma identificação sensorial resultando no aspecto cromático e criando associações surpreendentes. Assim, o poeta barroco diz: “os marfins da boca” ao invés de dentes, “o zéfiro manual” (vento suave) ao invés de leque, “a língua dos olhos”, ao invés de lágrimas, “rubi”, ao invés de sangue”[28].

Cabe-nos enfatizar também a anáfora que vem do grego ana, ‘repetição’ + phorá, ‘que conduz’[29], é uma figura de construção que consiste na repetição intencional de uma ou mais palavras no início de vários versos, promovendo intensidade à expressão, bem ao gosto da perspectiva barroca, como aparece em “Buscando a Cristo crucificado um pecador, com verdadeiro arrependimento” do grande Gregório de Matos:


“A vós correndo vou, Braços sagrados,
nessa Cruz sacrossanta descobertos;
que para receber-me estais abertos,
e por não castigar-me estais cravados.

A vós, Divinos olhos, eclipsados,
de tanto sangue e lágrimas cobertos;
pois para perdoar-me estais despertos,
e por não condenar-me estais fechados.

A vós, pregados os Pés, por não deixar-me:
A vós, Sangue vertido, para ungir-me:
A vós, Cabeça baixa, por chamar-me:

A vós, Lado patente, quero unir-me:
A vós, Cravos preciosos, quero atar-me,
ara ficar unido, atado e firme”[30].


A Anáfora também pode ocorrer na prosa, quando iniciamos as orações ou períodos por uma mesma palavra ou locução. Observando:

“Quando fazem os ministros, o que fazem? Quando respondem? Quando deferem? Quando despacham? Quando ouvem?”[31].

Prossigamos agora, mencionando o hipérbato que significa do grego hipérbaton, ‘inversão’[32], é uma figura de ordem inversa que consiste numa inversão violenta da ordem direta da frase.

O hipérbato resulta em certa dificuldade de leitura, como se verifica nos dois primeiros versos do poema “A uma ausência” publicado em fênix renascida:

“Sinto –me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me assusta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado”[33].


Reescrevendo-os em ordem direta, teríamos: “No rigoroso fogo que me alenta sinto - me todo abrasado sem sentir.”

Tal inversão de ordem direta parece bem articular-se com as torções tão presentes na estética barroca. Estas primam por produzir efeitos onde a alteração da forma intensifica o que se quer exprimir. Como bem demonstra o fragmento do poema de Franscisco de Pina e de Melo “Ao mesmo assunto na circunstância de a coroar depois de morta”:


“Quis fazer-lhe imortal a majestade,
E só morta lha deu pois sem a morte
Ninguém pode passar à eternidade”[34].


Na ordem direta teríamos: A majestade quis fazer-lhe imortal, e só morta lha deu pois ninguém pode passar a eternidade sem a morte.

Com essa mesma intenção de intensificar a expressão, a literatura barroca encontra farta exploração dos efeitos produzidos pela anadiplose. Esta é uma figura pleonástica que consiste na reiteração dos termos finais de um verso ou oração, no início do verso subseqüente. Essa figura fica bem clara no poema desse mestre, a quem sempre se recorre, que é Gregório de Matos, “Retrato de D. Brites, uma formosa dama na Bahia, de quem o Autor se namorou, e tratou vários tempos”:


“No peito, desatina o Amor cego,
Cego só pelo amor do vosso peito,
Peito em que o cego Amor não tem sossego;
Sossego por não ver-lhe amor perfeito;
Perfeito, e puro amor em tal emprego;
Emprego, assemelhando à causa o efeito;
Efeito, que é mal feito ao dizer mais
Quando chega o Amor a extremos tais”[35].

4- Principais representantes da literatura barroca no Brasil

Apresentam-se neste capítulo, os principais autores e obras da Literatura barroca no Brasil.

Para se entender um pouco em que contexto se passou a era do estilo barroco, serão abordados aspectos gerais da vida de alguns autores representativos deste período. São eles: Gregório de Matos, Padre Antônio Vieira, Manuel Botelho de Oliveira e Bento Teixeira.

Como não poderia deixar de ser, começaremos por Gregório de Matos.

4.1 - Gregório de Matos Guerra:

Nascido em Salvador na Bahia, em 20 de dezembro de 1633, entrou para o Colégio dos Jesuítas da Bahia com catorze anos e, revelando grande argüição nos estudos, os pais mandam-no estudar Direito em Coimbra. Tornou-se Bacharel Formado, viveu alguns anos em Lisboa exercendo a profissão, ocupando vários cargos na magistratura portuguesa. Porém, o caráter irreverente de suas sátiras provocou sua expulsão dessa cidade. Nesse tempo, casou-se e enviuvou. Voltou então ao Brasil, desiludido. Em Salvador levou vida desregrada, compondo poemas satíricos e tendo famosos encontros amorosos com freiras. A intensidade de suas sátiras justificou o apelido com que ficou sendo conhecido: Boca do Inferno. Em sua terra natal, é convidado a trabalhar com os jesuítas no cargo de tesoureiro-mor da Companhia de Jesus. Em 1694, casa-se novamente com a viúva Maria de Povos, inspiradora de alguns de seus poemas líricos. Após esse período, abandona os padres e é degredado para Angola; já bastante doente, retorna ao Brasil um ano depois, mas sob duas condições: estava proibido de pisar em terras baianas e de apresentar suas sátiras. Morreu em Recife, no ano de 1696; com 59 anos foi enterrado na Capela do Hospício de Nossa Senhora da Penha. Demolida a Capela, não restou nenhum vestígio de Gregório de Matos Guerra.

Nunca em vida Gregório de Matos publicou um livro, e suas poesias colecionadas e publicadas apenas por seus admiradores, sobrevive até hoje em antologias. A principal antologia foi feita pela Academia Brasileira de Letras no começo do século. As suas composições poéticas denotam um ódio violento com alternância de religiosidade e arrependimento.

Apesar de ser conhecido como poeta satírico, Gregório de Matos, também praticou, e com esmero, a poesia religiosa e a lírica. Podemos ressaltar que ele utilizava o estilo conceptista mais do que o cultista, apresentando jogos de palavras ao lado de raciocínios sutis, sempre com o uso abusivo de figuras de linguagem, “Aos Vícios” demonstra bem o caráter crítico e engajado deste poeta:

“Eu sou aquele que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos”[36].

A sátira de Gregório não se voltou apenas contra as situações, instituições, mas também para pessoas: fidalgos, mulatos, gente do povo e do governo, todos são objetos do seu escárnio.

Assim se define Gregório no início do poema “Aos vícios”. E, realmente, no poema satírico procura satirizar o brasileiro, o administrador português, el-rei, o clero e, numa postura moralista, os costumes da sociedade baiana do século XVII. É patente um sentimento nativista quando ele separa o que é brasileiro do que é exploração lusitana.

Na poesia lírica e religiosa, deixa claro certo idealismo renascentista, colocado ao lado do conflito entre o pecado e o perdão, buscando a pureza da fé, mas, tendo ao mesmo tempo, necessidade de viver e exprimir a vida mundana. São essas contradições que o situam perfeitamente na escola barroca.

Sua obra permaneceu inédita até o século XX, quando a Academia Brasileira de Letras, entre 1923 e 1933, publicou seis volumes, assim distribuídos: I. Poesia sacra; II. Poesia lírica; III. Poesia graciosa; IV e V. Poesia satírica; e VI. Últimas.

Passemos agora a comentar outro “monstro sagrado do Barroco”
que é o Padre Antônio Vieira.

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...

[5] OLIVEIRA, Manuel Botelho de. “Ponderação do rosto e olhos de Anarda.” In: AMORA, Antonio Soares. Panorama da poesia brasileira: era luso-brasileira. Vol. I. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1959,p. 61.
[6] MATOS, Gregório de. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros na fase
colonial. São Paulo, Editora Perspectiva, 1979, p. 64.
[7] SHAKESPEARE. Hamlet. Ato III, cena 1, p. 205. Paris, GF- Flammarion, 1995.
[8] MATOS, Gregório de. In: AMORA, Antonio Soares. Panorama da poesia brasileira: Era luso brasileira. Vol. I. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1959, p. 31.
[9] MATOS, Gregório de. “Expressões amorosas de üa dama a quem queria.” In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros. São Paulo, Editora Perspectiva, 1979, p. 85.
[10] MATOS, Gregório de. “Defendendo o bem perdido”. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros. São Paulo, Editora Perspectiva, 1979, p. 63.
[12] In: www.geocities.com/alcalina.gel/39litera/
[13] MATOS, Gregório de. “Pecador contrito aos pés de Cristo cruxificado.” In HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo, editora pespectiva, 1979, p.57.
[14] VIEIRA,Antônio. In FARACO, Carlos Emílio. MOURA, Franscisco Marto. Língua e Literatura. São Paulo, Editora Ática, 1999, p. 309.
[15] MATOS, Gregório de. In: FARACO, Carlos Emílio & MOURA, Francisco Marto. Língua e literatura.
Editora Ática, 1999, p. 316.
[16] FARACO, Carlos Emílio & MOURA, Francisco Marto. Língua e literatura. Editora Ática, 1999, p. 317.
[18] MATOS, Gregório de, in HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo, Editora Pespectiva, 1979, p.67.
[19] NICOLA, José de & INFANTE, Ulisses. Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa. São Paulo,
Editora Scipione, 1990, p. 437.
[20] MATOS, Gregório de. “Defendendo o bem perdido.” In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos
poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo, Editora Perspectiva. 1979, p. 307.
[21] MATOS, Gregório de. In: FARACO, Carlos Emílio & MOURA, Francisco Marto. Língua e literatura.
Editora Ática, 1999, p. 307.
[22]NICOLA, José de & INFANTE, Ulisses. Gramática contemporânea da língua portuguesa. SãoPaulo,
Editora Scipione, 1990, p. 437.
[23] In: www.geocities.com/alcalina.gel/39litera/
[24] FERREIRA, Nádia Paulo. Poesia Barroca. Rio de Janeiro, Editora Ágora da Ilha, 2000, p.63 e64.
[25] OLIVEIRA, Botelho. “Anarda passando o Tejo em uma barca.” In: BOSI, Alfredo. História Concisa da literatura brasileira. São Paulo, Cultrix, 1936, p. 42.
[26] NICOLA, José de & INFANTE, Ulisses. Gramática contemporânea da língua portuguesa. São Paulo, Editora Scipione, 1990, p. 441.
[27] MATOS, Gregório de. “Dos desenganos da vida humana.” In: BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo, Cultrix, 1936, p. 39.
[28] In: www.geocities.com/alcalina.gel/39litera/
[29] NICOLA, José de & INFANTE, Ulisses. Gramática contemporânea da língua portuguesa. São Paulo, Editora Scipione, 1990, p.35.
[30] MATOS, Gregório de. “Buscando a Cristo crucificado um pecador, com verdadeiro arrependimento.” In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo, Editora Perspectiva. 1979, p. 56.
[31] VIEIRA, Antônio. In: NICOLA, José de & INFANTE, Ulisses. Gramática contemporãnea da língua portuguesa. São Paulo, Editora Scipione, 1990, p. 35.
[32] NICOLA, José de & INFANTE, Ulisses. Gramática contemporânea da língua portuguesa. São Paulo, Editora Scipione, 1990, p. 436.
[33] FERREIRA, Nádia Paulo. Poesia Barroca. Rio de Janeiro, Editora Ágora da Ilha, 2000, p.47
[34] FERREIRA, Nádia Paulo. Poesia Barroca. Rio de Janeiro, Editora Ágora da Ilha, 2000, p.86.
[35] MATOS, Gregório de. In: AMORA, Antônio Soares. Panorama da poesia brasileira: Era luso-brasileira. Vol. I. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1959, p. 39.
[36] MATOS, Gregório de. “Aos vícios”. In: AMORA, Antônio Soares. Panorama da poesia brasileira: Era luso-brasileira. Vol. I. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1959, p. 41.




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Atenciosamente,

Lineu Roberto de Moura
artculturalbrasil





8 comentários:

  1. jamais deixar morrer as lindas obras... assim são nossas lindas poesias e poetas sempre defende-los ....

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  2. Anônimo18:05

    Nada melhor do que a história, a volta a um passado tão decisivo pra esse tão sonhado futuro!!!

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  3. Anônimo16:16

    Muito bom esse texto achei tudo o que precisava,um texto completo e facil de entender!!!

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  4. Bacana achei bem xplicado esse assunto sobre Barroco

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  5. Anônimo20:31

    eu achei tudo oque precisava para minha apresentação de slides, parabéns pelo Blog.

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  6. Anônimo22:39

    muito bom consegui a explicação concreta para o meu trabalho. Obrigado!

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  7. Anônimo02:01

    Achei incrível seu trabalho sobre a literatura barroca brasileira, imensamente mais completo que todos os sites de educação que visitei, parabéns.

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  8. O movimento barroco nasceu de um momento de crise espiritual da sociedade europeia do sec. XVII, de contradições e mentalidades medieval renascentista, do homem contraditório, cujo legado cultural/artístico, regular e cristalina e não representa deformações muito menos defeitos,da origem espanhola do vocábulo barrueco. Podemos destacar com orgulho as obras literárias dosimortais: Gregório de Matos,Bento Teixeira,Pe. Antonio Vieira, dentre outros brasileiros não menos ilustres.

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