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UMA CIDADE SEM MEMÓRIA CULTURAL É UMA CIDADE SEM FUTURO HISTÓRICO

Roberto Medeiros




Juiz de Fora - MG
1923 - 1995
"Não há criança vadia
e as que esmolam a teus pés
são anjos que Deus envia
para saber quem tu és..."
(Roberto Medeiros)

Roberto Faria de Medeiros, nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 17 de julho de 1923, filho de João Medeiros da Silva e de Tereza Faria de Medeiros. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional da Universidade do Brasil. Lecionou as cadeiras de Direito Internacional Privado e Direito Civil na Faculdade de Direito de Juiz de Fora. Colaborou em jornais e revistas. Foi um dos fundadores do NUME (Núcleo Mineiro de Escritores). Atuou como assessor cultural colaborando de forma acentuada nos dois primeiros mandatos de Itamar Franco na prefeitura de Juiz de Fora, exercendo os mais diversos cargos na cultura daquele município. Acompanhou Itamar Franco, desde a prefeitura em Juiz de Fora até a presidência da república. Foi senador suplente da senadora Júnia Marise, diretor de recursos humanos da Telemig ( empresa telefônica de Minas Gerais) antes da sua terceirização por um grupo multinacional, onde se notabilizou por ser o mais humanitário diretor de empresa pública em Minas Gerais.

Intelectual de vida boêmia e fraternal foi muito criticado no meio político por sua exposição, quase que diária, em grupos e rodas de música popular brasileira e de poesia. Considerado por ter sido o assessor responsável em sugerir e escrever os peculiares tópicos de humanismo dos discursos proferidos pelo então iniciante candidato Itamar Franco, à prefeitura de Juiz de Fora, depois ao senado, à presidência da república e ao governo de Minas.

A partir de 1980 estreitou laços de amizade com José Antonio Jacob, com especial admiração pelos versos deste poeta. Com Jacob, Gilberto Vaz de Melo, Décio Mostaro, Marcos Nunes e outros amigos, poetas, jornalistas, artistas plásticos e pessoas ligadas a toda espécie de cultura, erudita ou popular, Medeiros criaria a denominada "Mesa do Espelho", no restaurante Brasão, em Juiz de Fora, onde eram discutidos os acontecimentos da época, desde poesia, política, carnaval, futebol, até as amenidades corriqueiras de mesa de bar.

É autor de inúmeros sambas-enredos de escola de samba. Poeta e trovador premiado em muitos jogos florais brasileiros. Faleceu em 19 de novembro de 1995. No ano de sua morte publicou seu primeiro livro, Cantos e Contos de Minas, em parceria com o amigo e escritor Carlos Décio Mostaro.

O Abraço
(Roberto Medeiros)

O abraço, amiga, é um gesto
Afetivo, um manifesto,
Sensível, que o coração
Mais do que a mente nos dita
Pedindo que se transmita
Para alguém nossa emoção.

O abraço, amiga, é uma carga
Muito doce ou muito amarga
De um estado emocional...
Carinho que se refina
E a nossa alma ilumina
Como se fosse Natal.

O abraço, amiga, é um laço
Que nos conduz ao regaço
Onde mora o bem-querer...
É um traço de união,
Um ponto de afirmação
Por entre um Ser e outro Ser.

O abraço, amiga, ele emana
Daquela grandeza humana
De se fazer solidário...
É um ato de bondade,
De afeição e de amizade,
Florindo nosso calvário.

O abraço, amiga, é o instante
De uma união fascinante
Onde as almas se entendendo
Vão, rogando em comunhão,
Que, cada um coração
Escute o outro batendo.

O abraço, amiga, desejo
Não confundi-lo com beijo
Já que eu sempre os entrelaço...
O passarinho – lhe explico –
É que beija com o bico
Sem o aconchego do abraço.

O abraço, amiga, é gracioso,
Espontâneo, dadivoso,
Assim como o sol que nasce,
Como o ar que se respira,
A lágrima que transpira
E umedece a nossa face.

O abraço, amiga, no entanto,
Tem gente – prá nosso espanto –
Que recusa concedê-lo,
Que evita nos abraçar,
Com receio de gastar
Como se fosse perdê-lo.

O abraço, amiga... tem gente
Que supõe, infelizmente,
Que ninguém o mereceu...
É que acredita, talvez,
Que o seu acervo se fez
Dos abraços que não deu.

O abraço, amiga, há de ser
Como o seu que vem trazer
O gosto de se gostar...
A pretexto, neste passo,
Tem aí um doce abraço
Sobrando para me dar?...



Maria Louca
(Roberto Medeiros)
À Adhemar Mendonça


Pobre Maria – dizem que ela é louca –
Desvive por aí, pela cidade,
Trazendo sempre maldições na boca,
Retrata ao vivo a filha da orfandade.

Esquálida, de voz um tanto rouca,
Era um comício contra a sociedade.
Repartindo a comida que era pouca,
Até aos cães fazia caridade.

Um dia, em nome dos costumes, penso,
Foi presa pelos homens de bom senso,
Esquecidos de sua enfermidade...

Maria, resmungando maldições,
Julgada louca, tem suas razões
De achar mais louca a própria Sociedade.


Como é bom ser bom
(Roberto Medeiros)
A meu irmão Hélio Medeiros


Ser justo, ser indulgente,
Ter a bondade por Dom,
Purifica a alma da gente,
Mas, ah!... como é bom ser bom!...


É ser humano e divino,
É ser por todos benquisto,
E num gesto pequenino
Ter a grandeza de Cristo.

Pela riqueza que passa
Nunca a bondade se mede,
Que, dentre as graças, é a graça
Mais rica que Deus concede.

Ser bom não nos custa nada,
Mesmo que se escute o som
De perversa gargalhada...
Mas, ah!... como é bom ser bom!...

Bom, assim, como a doçura
De um sentimento fraterno;
Bom como a paz, a ternura,
Como o carinho materno.

Ser bom qual suave cantiga,
Qual sorriso de criança;
Ser bom como carta amiga
Reverdecendo esperança.

Ser bom, como o mitigar
Nossa sede num oásis;
Ou como a gente brigar
E depois fazer as pazes.

Igual às coisas mais lindas,
Bom como um favo de mel,
O mesmo que as boas-vindas
Vindas com Papai Noel.

Como o beijo que se ganha,
Como a jura em doce tom,
Como taça de champanha,
Bom, assim, como o Ano Bom.

Ser bom, e simples, e calmo,
Como as pétalas da flor,
Como a harmonia de um Salmo,
Como as bênçãos do Senhor.

O ser bom é faculdade
Que se reflete num bis:
Só praticando a bondade
É que se sente feliz.


RAPSÓDIA
(Roberto Medeiros)
Ao poeta José Antonio Jacob

Com minha alma transbordando
De ansiedade e ternura,
Como a luz fui penetrando
Pelas frinchas da moldura
Daquele reino de opala,
Nesta aquarela chinesa,
Onde devia encontrá-la
Desperdiçando beleza!...

O sol redondilhando o chão
Abria leques nas sombras
Diluindo a escuridão
Preguiçosa nas alfombras...
Raios de luz qual palhetas
Neste painel que deslumbra,
Projetavam silhuetas
Afugentando a penumbra!...

Envolta em fluída neblina
Que revestia as veredas,
Minha alma ouvia em surdina,
Como sussurros de sedas,
A sinfonia dos ventos,
Os acordes das aragens
Perfumando estes momentos
Com o aroma das folhagens!...

Coloridos matinais,
Gorgeios e murmurinhos,
Doces notas musicais
Da orquestra de passarinhos,
Naquele sonoro estúdio,
Enternecido eu ouvia,
Suavíssimo prelúdio
Em homenagem ao dia!...

Vi o bailado das folhas
Que em provocantes acintes
E caprichosas escolhas
Sofisticavam requintes,
Como se fossem ciganas
Rodopiavam felizes
E teciam filigranas
No arabesco das raízes...

Formando um leito de plumas
Coberto por nuvens brandas,
Tecido em fio de espumas,
Debruado por guirlandas...
Macia alcova de fada
Feita por anjos travessos,
Para as delícias da amada,
Com lascivos adereços...

Carpindo loas aflitas
Em redondilhas sonoras,
Pensavam cousas não ditas
Na amarga fuga das horas,
À espera que ela surgisse
Aplacando os meus desejos,
Com sua graça e meiguice,
Com seus carinhos e beijos!...

Na deslumbrante aquarela
Por mãos divinas pintada,
Ela surgiu bem mais bela
Que as nuances da alvorada,
Vaporizando os martírios
Destas horas tão ansiosas,
Com a fragrância dos lírios,
Com o perfume das rosas!...

Era a manhã que nascia
Gêmea da própria manhã
Que invejosa se escondia
Ante a beleza da irmã...
Era um poema de luz
Refletindo em rosicler,
Um sorriso que seduz,
Os encantos da mulher!...

No murmúrio de quem ousa
Partilhar as reticências,
Seu olhar no meu repousa
Pejado de confidências...
Lindas mensagens cifradas,
Resumo de nossas vidas:
Perguntas não formuladas,
Respostas não proferidas!...

Inequecíveis segundos
Que nos valeram por anos
Cristalizando profundos,
Nossos anseios humanos
Que o tempo nunca desmente
Embora passe veloz,
Testemunhando silente
O que existiu entre nós...

Enquanto a manhã vibrava
Na adolescência do dia,
A noite em minha alma escrava
Soturnamente descia
Na porcelana do ocaso
Do meu sonho interior,
Que contrafeito extravaso
Em pesadelos de dor...

Porque vejo com tristeza,
Maculando esta obra-prima,
Serem mais que a natureza
E o próprio amor que sublima,
Que preconceitos e normas
Que a praxe determinou
Na indumentária das formas
Que a mente humana criou!...

E a natureza se acalma,
Presságio de despedida,
Eclipse na minha alma,
Pôr-do-sol de minha vida...
Adeus meu reino de opala,
Berço de instantes risonhos,
Adeus derradeira escala,
Campo sonho dos meus sonhos!...


Do livro "Cantos e Contos de Minas" - 1995




REALIZAÇÃO



3 comentários:

  1. Saudações cordiais.Adoro rememórias.Encontrar o Roberto aqui mexeu com as lembranças dos Anos 60/70.Fui sua contemporânea no NUME (Núcleo Mineiro de Escritores) e trabalhei com ele, no escritório de advocacia...Acompanhei José Carlos de Lery Guimarães decorando seu poema LENIRA, com o qual concorreria em Niterói, os dois andando para lá e para cá e dizendo alto os versos, no escritporio. ...Ambos éramos da UBT/JF, grande trovador.Essa trova cita acima,pelo ArtCultura Brasil, foi replicada a José Carlos de Lery:"E a tua felicidade/é que esse anjinho ao voltar/não conta a Deus a verdade/para não te condenar" .Ele foi ao meu casamento, era uma espécie de padrinho.Nós o chamávamos "Vinicius do Brejo", dada a semelhança física com Vinicius de Moraes em certa época da vida e pela boemia .Um abraço:Clevane Pessoa de Araújo Lopes.

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    1. Anônimo10:21

      com que alegria te encontro nessa homenagem ao: Bob Medeiros, meu amigo e parceiro. Com saudades lembro do NUME e seus poetas (você inclusive), compositores e artistas. Sempre vou a JF mas não existem mais os locais, as pessoas e as horas. Fica a minha saudade e a alegria de poder enviar a você esse recado. Receba o carinho e a amizade do Rogerio Carvalho

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    2. Agradecemos a visita do ilustre poeta e compositor, Rogério Carvalho; personalidade sempre presente nos movimentos culturais e musicais em Juiz de Fora. Rogério Carvalho obteve premiação em vários eventos musicais e literários nos "bons tempos" da boêmia clássica da cidade.
      Receba nossa admiração e fraternal abraço.

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