"Uma cidade sem memória cultural é uma cidade sem futuro histórico"
(José Antonio Jacob)

Politicamente Poético

Página Maria Granzoto
Editora de Literatura ArtCulturalBrasil
Arapongas - Paraná

Três de outubro do ano de dois mil e dez – É preciso mudar!
Relembrando... Será que muda?


E o fez com “lobo em pele de cordeiro”
Que não se vexa de nutrir seus filhos
Com os parcos recursos maltrapilhos
Da miséria do povo brasileiro.

( In “Veritas”, de José Antonio Jacob )

E que há de negar? Presenciamos a unificação de interesse na reivindicação de “impeachement” do ex-presidente Collor. Os intrépidos cara-pintadas, uma réplica do “Para não dizer que não falei de flores...” Todas essas manifestações demonstraram que a população brasileira é sempre ativa na defesa das causas democráticas. Contar a história desses movimentos é resgatar as entrelinhas e os silêncios da narrativa histórica oficial. É desvendar sonhos e utopias silenciados pelos gritos, espancamentos, mutilações. Ouvir os "murmúrios" dos arquivos e dos documentos é registrar paixões, ideologias, costumes, valores de uma determinada facção social, emudecida pela omissão historiográfica. Resgatar esta história é resgatar parte de nossa memória, uma memória de luta, de resistência, de desaparecidos e torturados. Trata-se de uma análise sobre o pensamento político de pessoas que romperam laços autoritários de dominação e ajudaram a mudar a história do Brasil.

“ Da miséria do povo brasileiro.” Euclides da Cunha, em “Os Sertões”, escreveu sobre os “traços mais expressivos das sub-raças brasileiras”. Jagunços, tabaréus, caipiras... A força motriz da História...Ah, se ele soubesse... Descamisados, sem-teto, sem assistência médica eficaz, sem-terra, “n” variedade de bolsas que não estão nas vitrines...
(...)

“E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…”

(In Esperança, Mário Quintana)

Verdade que muitas coisas são sociais e políticas, e em sentido amplo e humano, tudo, mas quanto ao que Quintana se referia, por exceção alguma vez se contradisse, tematizando os humilhados sociais. A bem da verdade, o brasileiro sempre viveu de Esperança, desde o nascimento até a morte!

  Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas”

( In A rosa de Hiroxima,* Vinícius de Moraes)

Numa postura humanista, em que cria figuras com fortes tintas, o poeta canta contra a guerra. Usando o verbo "pensar" no imperativo ("pensem"), "convida-nos" a todos a refletir diante das atrocidades causadas pela guerra; e, principalmente, a causada pelo mais novo rebento gerado pelo ser humano: a bomba atômica. A culpa não é apenas de um indivíduo ou outro. A culpa, a responsabilidade da destruição não é de um país X ou Y, mas de toda a humanidade. O que está em jogo aqui é a própria existência, ou melhor dizendo, a própria sobrevivência humana. O ato de pensar será o mais importante para as eleições que se aproximam. Afinal, ninguém gostaria que a “bomba atômica” explodisse em nossas vidas, em nosso País!

( - Vinícius grafa Hiroxima com X, pois a rigor é essa a adaptação do nome próprio japonês para a língua portuguesa. Em tempos mais recentes, devido à influência do inglês, é mais comum que se grafe a palavra com SH. Ambas as formas são aceitas na norma culta.)

( ... )

Cabecinha boa de menino mudo,
que não teve nada,
que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.

( In Criança, Cecília Meireles)

O tema do poema é a infelicidade da vida, a sua transitoriedade, anunciada a todo instante pela morte, encarada como fato natural e verdadeiro. O poema é construído com cinco estrofes, cada uma com três versos, podendo sugerir as cinco fases do ciclo humano. A anáfora e o adjetivo utilizados, neste instante é “mudo”, dizendo-nos que ele, o menino, está sem palavras, sem ação, diante do que vive e sofre. A carência emotiva e material do menino, acentuado pelo uso das palavras “não” e “nada”, mostrando que ele tinha receio de perder as poucas coisas boas que a vida lhe deu. E assim é a nossa realidade. Parece não mudar nunca! Qual a razão desssa mesmice? Analfabetismo, maus tratos, exploração de menores...

O próprio senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse certa vez que, do ponto de vista social, os dois projetos de lei enviados ao Congresso Nacional pelo presidente para proteção das crianças, são falhos e incompletos. Cristovam assinalou que no Brasil permanece a violência da criança abandonada, que não é pior do que a violência da criança maltratada.

O Brasil também se sobressai no número de crianças fora da escola: eram 901 mil em 2007, com idades entre 7 e 10 anos, o que o coloca em 12º lugar nesse ranking.

( ... )

Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,

(...)

(In O Livro e a América, Castro Alves)

No poema O Livro e a América, Castro Alves deixa transparecer sua preocupação acerca da problemática social da educação no Brasil, sempre tratada com descaso. Problema sempre atual e difícil de combater, faltando mais vontade minimizar os problemas referentes à educação pública no Brasil. Como se vê, a situação caótica na área educacional ( também), vem de longa data! Entra e sai governo e o estado de abandono permanece e aumenta!

Piorou o desempenho do País no Índice de Desenvolvimento Educacional (IDE) apresentado no relatório, calculado com base em indicadores da área. Se no estudo anterior (que tomava como base os dados de 2005) o País alcançou IDE 0,901 (numa escala de que vai de 0 a 1), no último (baseado nos dados de 2007), o indicador cai para 0,888. Com o resultado, o Brasil ocupa a 88ª posição em um ranking de 128 países, atrás de Paraguai, Equador e Bolívia. O Brasil destacou-se negativamente no Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos 2010 divulgado no dia 19 de janeiro pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em Nova Iorque. De acordo com o estudo, o País apresenta o maior índice de repetência na escola primária em relação aos demais países da América Latina e Caribe: 18,7%, enquanto a média na região é de 4,4%.

Segundo um dos analistas responsáveis pelo relatório, Nicole Bella, o Brasil perdeu pontos porque a matrícula caiu de 95,6% em 2005 para 93,5% em 2007 e a taxa de sobrevivência na 5ª série de 80,5% para 75,6% no mesmo período. A Noruega lidera o ranking da Unesco. Ela e mais 60 países estão no grupo daqueles que já cumpriram ou estão perto de atingir todos os objetivos firmados no compromisso. Trinta e seis estão no grupo “intermediário” e 30 são classificados como tendo IDE baixo.


“QUE PAÍS É ESTE?”

( ...)

Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?

Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

(In Conclusões de Aninha, de Cora Coralina)

O jornalista George Brito, de Salvador(BA), escreveu no dia 19 de agosto deste ano: “ O brasileiro abaixo da linha de pobreza (hoje são 43 milhões nessa situação) olha para sua condição política - quer dizer suas possibilidades dentro da pólis, da cidade, de quem tem renda suficiente apenas para comprar comida e os que têm menos ainda - e põe na balança se vota naquele candidato que lhe promete um hospital público ou naquele do saco de cimento, uma dentadura, uma cesta básica etc etc etc. Coisas que lhe chegam de pronto, diferente das promessas eleitoreiras deslumbrantes e, da maioria das vezes, inexecutadas.”

(...)

O camponês também
do nosso Estado,
ante a campanha eleitoral:
Coitado.
Daquele peixe tem
a mesma sorte.
Antes do pleito:
festa, riso e gosto.
Depois do pleito:
imposto e mais imposto…
Pobre matuto do
Sertão do Norte.

(In O Peixe, de Patativa do Assaré)

Será que todos os brasileiros tiveram acesso ao Portal Exame que apresentou algumas considerações sobre o aumento de impostos, num artigo de Marcio Orsolini, no dia 30/07/09, cujo título é “Brasil só põe as contas em ordem após as eleições”? “Uma das medidas para aumentar a arrecadação seria a criação de novos impostos. A possibilidade é remota dada a sua impopularidade, mas há quem a defenda. Para aumentar a arrecadação, o governo estuda criar um novo tributo: a Contribuição Social para Saúde (CSS). Essa contribuição seria cobrada sobre movimentações financeiras assim como a antiga CPMF, que, antes de ser extinta, rendia 40 bilhões aos cofres públicos por ano. A alíquota, entretanto, será de 0,1%, contra 0,38% de sua antecessora.

(...)

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

(In O Bicho, de Manuel Bandeira)

O gato das ruas, como o cão, tolerado pelo povo e perseguido por uns poucos abnegados funcionários da dita “carrocinha” não poderia ser o bicho do poema, não examinou a comida que estava a sua disposição. Não conheço gato que coma alguma coisa sem antes observar com todos os seus sentidos o prato, e se um só item estiver em desacordo com as expectativas, é muito mais provável deixar o alimento ali e procurar por coisa melhor. O terceiro animal, o rato, tomado como uma praga na vida do homem, que desde o início da civilização vem saqueando nossa despensa, à nossa revelia participando de festas, viagens e mais viagens, invasão de privacidade, subornos e mais uma infinidade de falcatruas... Ou seja, nesses três animais o poeta faz uma digressão, do animal mais próximo e amado pelo homem a um dos mais odiados, assim como faz uma digressão de um subjetivo índice de humanidade desses três animais.

O último verso é aquele que apresenta o substantivo “bicho” pela terceira vez. O bicho é revelado, o bicho era o homem. O poeta retira de nossa imaginação o véu que encobria a possibilidade de identificarmos a fera, e para nossa surpresa a fera era um homem igual a nós. Não olha Deus por esse homem?

Será por que na sua miséria e condição social deixou de possuir algum traço de humanidade? Será que o homem não pensa mais? Será que continuaremos a ser bichos?


(...)

Então vira o latão enferrujado
E, ali, remexe um sujo guardanapo
Que alguém deixou com resto de comida.

Depois, vai removendo, com cuidado,
Pedaço por pedaço, fiapo a fiapo,
De uma migalha que sobrou da vida.

(In O Vira-Lata, de José Antonio Jacob)

O cão vira-lata lembra-me a sombra do homem faminto, que vive virando a lata imunda do mundo. Manuel Bandeira viu certa vez um homem fuçando uma lata de lixo num pátio. Com esse material mínimo escreveu uma poesia (O bicho), muito admirada também num determinado setor das universidades de Roma e de Pisa. Roma! Os palácios vermelhos de Roma! Pisa! A lâmpada de Galileu! As romanas! As pisanas! O Vira-Lata “vira o latão enferrujado...” Pois é! Em Roma, a lata de lixo, outrora sórdido caixote (salvo para os vira-latas), transformou-se hoje num elegante objeto de plástico, em geral azul, perfeita esfera. Não é fácil ver-se o lixeiro e nem vira-latas. O lixeiro é um personagem kafkiano, quase marciano. Deixa-se a lata do lado de fora, e ele, pisando com pés de lã, invisível aos olhos mortais, discreto, obediente, esvazia a esfera azul. E usa luvas! Igualzinho num País chamado Brasil! E, relembrando J.G. de Araújo Jorge, “Não chegaremos ao livro, sem leite e o pão, nem chegaremos ao pão sem a terra e sem o teto, nem chegaremos à terra sem liberdade e justiça, nem chegaremos à liberdade, sem coragem e honestidade, oh! a indispensável coragem para essa luta. Lutemos pois, – todos nós, – brancos, pretos e amarelos, que choramos e comemos, que crescemos e estudamos, que sofremos e construímos, como homens sem cor, todos nós que precisamos do mesmo leite branco e do mesmo livro, e da mesma terra, e da mesma liberdade para viver.Viver. Ou até mesmo morrer, mas lutando.” Utopia? Creio que não se cada um usar da sua consciência e fizer a sua parte, por menor que possa ser, a migalha juntada a outras tantas migalhas, fará a diferença.

(...)

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

(In Operário em Construção, de Vinícius de Moraes)

Operário em Construção, de Vinícius de Moraes constitui um magnífico libelo acusatório contra a burguesia exploradora e as suas ardilosas ferramentas ideológicas que visam ocultar a divisão das sociedades em classes e a inevitável luta que se trava entre explorados e exploradores.Facilmente perceptível, porém, olhos vendados ou vendáveis não permitem que se veja, que se questione e que seja colocado um basta!

E agora, José?

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?

(...)

e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

(...)

José, para onde?

(In José, de Carlos Drummond de Andrade)

José não dorme, não cansa, não morre, ele é duro, apenas segue. Sua dureza é o que existe e tudo mais é o “nada” no qual ele se funde. Chama-se atenção para o caráter construtivo que o Existencialismo dá à categoria “nada”, ele é o inexistente, mais traz em si o por fazer. O poema foi publicado em 1942, ano de atuação do Estado Novo no Brasil. Desse fato decorre uma série de acontecimentos políticos e econômicos que irão assinalar a sociedade brasileira, tais como a repressão política; o preconceito institucional; a precariedade das condições de trabalho; a modernização industrial; a implantação e a afirmação de condutas autoritárias; a urbanização dispersiva. Esses acontecimentos tornam-se agravantes da situação de miséria enfrentada pela população e resultaram em uma disjuntura social. Desta, originou-se, principalmente, a desigualdade de privilégios concedidos à sociedade, intensificando, ainda mais, a formação de classes opressoras e oprimidas.

A figura de José vem nesse poema, justamente como representação de um problema coletivo. O poema todo está centrado na reflexão sobre a existência de José que resiste e segue vivendo. Começa e termina de forma interrogativa o que vem enfatizar o problema do direcionamento da existência.

Escrito durante a Segunda Guerra Mundial e da ditadura de Vargas, José, apesar da dureza, ainda tem o impulso de continuar seguindo. Mesmo sem saber para onde: “...Você marcha, José! / José, para onde?”

O caráter genérico do nome José, que serviria então para designar o ser humano em geral, transmite uma idéia de indiferença diante daquilo que não tem nome. Ou seja, José é apenas mais um na multidão. José é a maioria dapopulação deste Brasil!

O percentual de “Josés”, isto é, de famílias endividadas no país, neste ano de 2010, chegou a 59,2%,  praticamente o mesmo índice registrado no mês anterior, de 59,1%. O dado faz parte da Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC).

A média de famílias endividadas no terceiro trimestre deste ano foi de 58,7%, superior à do segundo trimestre, que foi de 56,9%. De acordo com o economista da CNC Bruno Fernandes, o nível de endividamento do trimestre aumentou devido a um reaquecimento da economia nesse período, depois de uma desaceleração.

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

(In A Morte do Leiteiro, de Carlos Drummond de Andrade)

Nos últimos quatro anos, piorou mais a saúde do brasileiro. O Brasil está mais gordo e sedentário. Abusa mais de álcool. Come menos feijão, frutas e hortaliças. Está mais sujeito à hipertensão e ao diabetes. Esse é o retrato de uma pesquisa anual feita pelo Ministério da Saúde desde 2006, com 54 mil moradores de todas as capitais. A revista ÉPOCA publicou com exclusividade os resultados colhidos em 2009.

A população brasileira vem envelhecendo de forma rápida desde o início da década de 60, quando a queda das taxas de fecundidade começou a alterar sua estrutura etária, estreitando progressivamente a base da pirâmide populacional. Passados 35 anos, a sociedade já se depara com um tipo de demanda por serviços médicos e sociais outrora restrita aos países industrializados. O Estado, ainda às voltas com os desafios do controle da mortalidade infantil e doenças transmissíveis, não foi capaz de aplicar estratégias para a efetiva prevenção e tratamento das doenças crônico-degenerativas e suas complicações. Em um contexto de importantes desigualdades regionais e sociais, idosos não encontram amparo adequado no sistema público de saúde e previdência, acumulam seqüelas daquelas doenças, desenvolvem incapacidades e perdem autonomia e qualidade de vida.( Revista de Saúde Pública).

(...)

Que mal fez, essa cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se é tudo tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

( In Mulher ao Espelho, de Cecília Meireles)

Este poema deixa ainda mais evidente traços de uma literatura feminina - embora a temática também seja universal. Aqui fica ainda mais explícita a pressão social em relação à imagem colocada sobre os indivíduos, especialmente sobre as mulheres. Também fica evidente uma crítica à falsidade nas relações interpessoais, nas quais as pessoas precisam apenas parecer ser determinada coisa - cosmética e superficialmente - para encontrar o seu lugar na sociedade. É interessante observar como já naquela época Cecília sentia os efeitos de um fenômeno que continuaria a crescer assustadoramente até os dias atuais. Como resultado, produziu este poema, que, além de belo, é também atemporal e universal.

O Brasil está entre os dez países do mundo com os piores indicadores de desigualdade de gênero entre 58 países, segundo Pesquisa Executiva de Opinião, do Fórum Econômico Mundial, de 2006. O Brasil ficou na 51 posição, atrás da Venezuela e Grécia e à frente de países muçulmanos como o Paquistão e Jordânia.

A pontuação do Brasil foi de 3,29. O Egito, que ficou em último lugar, ganhou nota 2,38. A nota máxima era sete.

Em Furnas Centrais Elétricas, por exemplo, funcionários que ocupam o mesmo cargo recebem salários diferenciados dependendo do sexo. Se for homem, a remuneração é maior. Empregados com 11 anos de estudos ou mais recebem R$ 1.492,70 de salário, contra R$ 874,44 pagos às funcionárias mulheres.

O relatório que o Brasil apresenta na ONU vai destacar avanços, como o selo e a Lei Maria da Penha - sobre prevenção à violência doméstica - e, sobretudo, os desafios necessários para reduzir a desigualdade entre os sexos. O aborto, por exemplo, é considerado pela delegação brasileira em Nova York um entrave à luta pela eqüidade de gênero, já que sua prática ilegal é responsável, em grande parte, pela mortalidade materna no país.

 
(...)

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem

( In A Velhice, de Castro Alves)

Rir, caro poeta, como? Da saúde debilitada? Do abandono? Da falta de assistência médica? Da ilusória aposentadoria “em até 20 minutos”?  O distanciamento entre a lei e a realidade dos idosos no Brasil ainda é enorme! Segundo os especialistas, para que esta situação se modifique, é preciso que ela continue a ser debatida e reivindicada em todos os espaços possíveis, pois somente a mobilização permanente da sociedade é capaz de configurar um novo olhar sobre o processo de envelhecimento dos cidadãos brasileiros. De acordo com membros do Ministério Público, algumas deficiências da Política Nacional do Idoso, são: a falta de especificação da lei que contribua para criminalizar a discriminação, o preconceito, o desprezo e a injúria em relação ao idoso, assim como para publicidades preconceituosas e outras condutas ofensivas; dificuldades em tipificar o abandono do idoso em hospitais, clínicas, asilos e outras entidades assistenciais para a punição de parentes das vítimas; falta de regulamentação criteriosa sobre o funcionamento de asilos, sendo preciso que a lei especifique o que devem essas entidades disponibilizar para a clientela, quem deverá fiscalizá-las, e qual a punição para os infratores.

(...)

Não tarda o solavanco do revés...
- Levanta Justiceira! Ergue teu busto!
Empunha o gládio por causa do justo
E esmaga essa impostura com teus pés!

(in Veritas, de José Antonio Jacob)

Em outubro estaremos elegendo os ditos “ nossos represententes “, aqueles que, segundo consta, defenderão nossos direitos com a maior retidão possível.

Serão os nossos “ Veritas “!

É hora do “solavanco do revés"!

Não sejamos ou não continuemos analfabetos
Lembrando Bertolt Brecht, “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais. “

“Em que pese o grande progresso material atingido pela humanidade no que tange aos avanços da ciência, da tecnologia e dos meios de comunicação, vivemos grandes paradoxos. Entre os absurdos da atualidade se pode observar que, apesar do acesso ao conhecimento e à informação, algo nunca antes existido para as grandes massas populacionais em todo planeta, o ser humano permanece ignorante e desinformado. Por conta disso, aumenta a manipulação dos poderes político e econômico e se vive um tempo de nulidades que são aceitas e projetadas com êxito na literatura, na música, no teatro, nas artes plásticas, no esporte, na economia na política, enfim, em todas as atividades que se tornam vulgares, artificiais, aviltadas. O Brasil tem milhões de brasileiros que gastam sua energia distribuindo ressentimentos passivos. Olham o escândalo na televisão e exclamam 'que horror'. Sabem do roubo do político e falam 'que vergonha'. Vêem a fila de aposentados ao sol e comentam 'que absurdo'. Assistem a uma quase pornografia no programa dominical de televisão e dizem 'que baixaria'. Assustam-se com os ataques dos criminosos e choram 'que medo'. E pronto! Pois acho que precisamos de uma transição 'neste país'. Do ressentimento passivo à participação ativa'. ( Arnaldo Jabor )

No que diz respeito à política não é difícil constatar que o Brasil se tornou o reino das nulidades, algo que se vem acontecendo de forma acentuada há quase oito anos. Como conseqüência, o eleitor sofreu um retrocesso voltando aos tempos que lembram a obra de Victor Nunes Leal, “Coronelismo, Enxada e Voto”. Em novos tempos, novos votos de cabresto, novos currais eleitorais.”

 (Maria Lucia Victor Barbosa, datado de 29/08/2010)


Maria Granzoto da Silva
Professora de Literatura

Realização

Poetas Citados

José Antonio Jacob