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UMA CIDADE SEM MEMÓRIA CULTURAL É UMA CIDADE SEM FUTURO HISTÓRICO

Natal na Rua da Miséria (comentado)

Página Maria Granzoto
Editora de Literatura ArtCulturalBrasil
Arapongas - Paraná





Natal na Rua da Miséria
(José Antonio Jacob)

Chegam os cochos e os desabrigados,
Seres de trapos e desajuntados,
Que cena horrível, que quadrante feio!
Logo se ajuntam outros maltrapilhos
Velhos molambos arrastando os filhos,
Vão dividir sua miséria ao meio...

Um estropiado quebra uma muleta,
Ateia fogo nela na sarjeta
E o bando atiça tralhas na fogueira.
Enquanto um magricela desdentado,
Corre a lamber um rato apavorado
A chama chupa um fiapo de madeira.

A turba louca chuta as ratazanas,
Ralando-lhes pelancas das membranas
E elas se arrastam em volta de um bueiro.
Um demente com rugas de esqueleto
Vai fisgando as ratonas com o espeto
Para uma churrascada no braseiro.

Um ranço de fumaça empola os ares
Daqueles miseráveis paladares:
Na demência da fome, um insensato,
Que tem um pé inchado e o outro calçado,
A duras penas rasga o outro sapato,
Descola o couro e cospe o afivelado.

Mastiga a bota e engole o pé solado
E feito espinhas deixadas de lado,
Retira os pregos presos na palmilha,
Desprega o salto, que era de borracha;
Parte o artefato em dois, igual bolacha,
Dá meio à mulher e o outro meio à filha.

As luzes se apagaram na ribalta
Papai Noel partiu: a noite é alta!
Finda-se o show terrível e anormal.
Os esfomeados babam nas vitrinas,
Que exibem gulodices natalinas
Que sobraram das vendas de Natal...



O título

“Natal na Rua da Miséria”, do poeta José Antonio Jacob, reproduz uma das mais atrozes cenas que permeia a maioria dos nossos irmãos brasileiros! Quantas ruas miseráveis existem no País? Quantos irmãos miseráveis nelas habitam? Censo sem senso! Não interessa aos mandatários! Não dá IBOPE!

Introdução

Até Quando? Ou desde quando? A população em situação de rua configura-se hoje como um dos maiores problemas sociais do Recife, e do Brasil. Não é diferente por onde passei. Em São Paulo, a Praça de República mostra-se como exemplo de incivilidade; Nas ruas paralelas ao Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, as diferenças sociais gritam aos olhos; nos bancos da Praça 15 de Novembro, em Santa Catarina, bancos viram camas duras e incomodas. De norte a sul, ou como queiram do Oiapoque ao Chuí, milhares de pessoas fazem das ruas seus espaços de convivência e sobrevivência. Então, pensaram muitos, não é só no nordeste que existe fome? Não, porque a desigualdade social é o mais cruel retrato de uma sociedade. E exclusão social não tem naturalidade, mas nacionalidade. Não é natural de uma região, e nem fruto de classes sociais menos favorecidas economicamente. Exclusão e segregação social são resultados da desigualdade resultante da má administração, gestão e aplicação dos recursos públicos.

Nos últimos vinte anos tem se verificado crescente preocupação com as questões da violência na sociedade brasileira. Tem também se percebido que os acelerados processos de industrialização e urbanização, ocorridos no final do século XIX trouxeram em seu rastro a eclosão da violência urbana. Neste sentido, registros sobre a década 1920 já evidenciavam grande inquietação social diante da violência através das ações e intervenções públicas voltadas ao combate da marginalidade dos pobres (Rabelo; Melo & Campos, 2006). E aqui, marginalidade não se traduzia como margem, onde habitamos ainda hoje os excluídos, mas como perigo oferecido pelos tantos e quantos “vagabundos” que agrediam a sociedade burguesa.

Mas há de se entender que com o passar dos tempos, o recrudescimento da miséria, o aumento vertiginoso do desemprego e a crise de valores em nossa política, contribuíram de forma direta ou indireta para a criação de uma espécie de “bode expiatório” pelo qual se justificaria as mazelas do país. Para Sarti (2005), era preciso outorgar a um outro, estranho e diferente, nossas responsabilidades pela violência. Ao Estado faltavam respostas nas quais pudesse esconder sua ineficiência enquanto gestão de direitos e vivencia garantida da democracia. E foi neste contexto, quase que “naturalmente” o pobre passou de forma automática a ocupar um lugar central nas discussões acadêmicas e dos governos, possibilitando a definição de um perfil para os agentes da violência (ADORNO, 2002). A concepção de pobreza tornou-se sinônimo de marginalidade, que passou a ter cara, nome, endereço e identidade. Estudos estatísticos, embora em sua maioria não oficiais, divulgaram as características do “sujeito marginal” a ser combatido: adolescentes e/ou jovens do sexo masculino, pobres, e em sua grande maioria negros ou mestiços que habitam as ruas, comunidades e favelas dos grandes centros urbanos.

A primeira estrofe

Chegam os cochos e os desabrigados,
Seres de trapos e desajuntados,
Que cena horrível, que quadrante feio!
Logo se ajuntam outros maltrapilhos
Velhos molambos arrastando os filhos,
Vão dividir sua miséria ao meio...

Muito forte a cena! Maior a indignação! Aos poucos, os miseráveis chegam “carregando suas casas”, porque as suas casas são os seus familiares. São nômades, como os antigos ciganos. Homens desfigurados, maltrapilhos e sujos. Mulheres banguelas e despenteadas. Adolescentes desnudos, vagando aéreos. Crianças soltas no mundo. Emaranhados de restos humanos aglomerados em calçadas frias e sujas. Sombras de almas amontoadas sobre caixas de papelão. Resíduos de uma sociedade insana e injusta, que jogados a sarjeta, habitam as noites do País! Mas esta não é uma noite qualquer... É noite de Natal! E o que é o NATAL? Quem tem a resposta? Quem são essas criaturas sem nome que, como ratos se alimentam dos restos, vasculham lixos em busca das sobras. Homens velhos e jovens, mulheres lesadas de beleza e crianças condenadas pelo asfalto. E que “vão dividir sua miséria ao meio...”!

As horas correm, céleres e a cidade se arruma para a Grande Ceia! Todos irão dividir...
Dividir a miséria que, a cada dia, se multiplica!

A segunda estrofe

Um estropiado quebra uma muleta,
Ateia fogo nela na sarjeta
E o bando atiça tralhas na fogueira.
Enquanto um magricela desdentado,
Corre a lamber um rato apavorado
A chama chupa um fiapo de madeira.

Insuficiência de renda para adquirir gêneros e bens de consumo? Escárnio! Antes, porém, é preciso pensá-la numa perspectiva de ausência de serviços imprescindíveis ao bem-estar social, tais como: acesso a educação de qualidade, atendimento médico-hospitalar, moradia digna, água potável, coleta de lixo, trabalho e segurança pública. Dizem certos autores que a pobreza se relaciona diretamente ao campo dos direitos – inclusive direitos constitucionais – e se traduz, assim, na igualdade de oportunidades e de acesso aos bens e serviços, sejam eles públicos ou privados. Que disparate! Acesso à sarjeta? Não vai muito tempo e poderão ser condenados por crime ambiental... É preciso proteger os roedores, não exterminá-los para fins torpes...

Nóbrega e Lucena (2004) salientam que no rastro do equivocado e pernicioso entendimento coletivo, a categoria "meninos de rua" foi forjada na modernidade, passando a circular nos anos 80 como marco teórico para a classificação de um grupo social emergente nas grandes metrópoles de países da América Latina, incluindo-se Brasil, México e Colômbia. E uma vez, utilizada como código de comunicação social, estabeleceu a identificação de um novo foco para estudos nas áreas da psicologia, epidemiologia, social, história, entre tantas outras, que geraram não apenas mudanças de nomenclaturas, mas de explicação histórica do fato (Nóbrega e Lucena, 2004). Tanto que em 1981, o então assessor sobre questões relacionadas a crianças abandonadas e sem famílias, do Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF, Piter Taçon, publicizou mundialmente, pela primeira vez, uma estimativa aproximada em torno de cinquenta milhões de crianças nas ruas das grandes cidades da América Latina, que classificou como “descendentes do milagre econômico e da miséria Humana”. E a mídia ainda tem a desfaçatez de exibir comerciais com crianças sendo “presenteadas” por famosos... Quanta hipocrisia!

A terceira estrofe

A turba louca chuta as ratazanas,
Ralando-lhes pelancas das membranas
E elas se arrastam em volta de um bueiro.
Um demente com rugas de esqueleto
Vai fisgando as ratonas com o espeto
Para uma churrascada no braseiro.

Outro crime ambiental? Chutar ratazanas vulneráveis para matar as coitadinhas que serão o prato principal da Ceia? Que horror! Quanta violência!

Abramovay (2002) diz que é preciso entender que “somente a partir da associação da vulnerabilidade com a desigualdade social e a segregação juvenil, tem-se conseguido esclarecer cenários das complexas nuances de relação juventude e violência”. Assim, a violência então pode ser compreendida como resultado direto da ausência de possibilidades de lazer e formação ética e cultural pautadas nos valores de solidariedade e de cultura de paz. É preciso criar novos parâmetros para a educação de nossos jovens, distanciando-nos dos modelos que vinculam esforços a êxitos, a exemplo de um banquete na sarjeta numa noite de Natal.

A quarta estrofe

Um ranço de fumaça empola os ares
Daqueles miseráveis paladares:
Na demência da fome, um insensato,
Que tem um pé inchado e o outro calçado,
A duras penas rasga o outro sapato,
Descola o couro e cospe o afivelado.

Será que nunca entenderemos que política pública não pode se configurar como “política para pobre”, como muitas vezes tem se apresentado dentro de uma lógica do “pão e circo”. Acima de tudo é preciso pensar as políticas na perspectiva de condições igualitárias de acesso e direitos. Direito a um pé de sapato, inclusive. Direito a não possuir dentes, direito a não ter o que comer... É preciso entender que nossos miseráveis não precisam de “oportunidades” restritas em sentido e significados relacionados a favores ou chances oferecidas pelo Estado, tão comuns nos discursos de gestores públicos e políticos brasileiros. Precisam ter possibilidades de garantias a educação de qualidade, saúde e capacitação profissional para inserção no mercado formal. Igualdades de direitos é o pilar da democracia, e por isso torna-se regra para resolução de conflitos sociais. Educar para não violar, não violentar e mutilar milhares de vidas como as que se espalham e se amontoam nas ruas sórdidas e fétidas do Brasil. Esse pilar deve ser imaginário...

A quinta estrofe

Mastiga a bota e engole o pé solado
E feito espinhas deixadas de lado,
Retira os pregos presos na palmilha,
Desprega o salto, que era de borracha,
Parte o artefato em dois, igual bolacha,
Dá meio à mulher e o outro meio à filha.

Existe cena mais encantadora do “insensato” dividindo a sua miséria?Lembrando Fernando Pessoa em “A miséria do meu ser” A miséria do meu ser,/Do ser que tenho a viver,/Tornou-se uma coisa vista./Sou nesta vida um qualquer/Que roda fora da pista.”

Essa é política pública brasileira: ou na verdade, apenas politicagem com dinheiro público.

A última estrofe

As luzes se apagaram na ribalta
Papai Noel partiu: a noite é alta!
Finda-se o show terrível e anormal.
Os esfomeados babam nas vitrinas,
Que exibem gulodices natalinas
Que sobraram das vendas de Natal...

Termina o espetáculo! Tudo aconteceu conforme o previsto. A miséria deixa o local porque os miseráveis, ainda de todo não saciados, vão comer com os olhos as guloseimas que restaram nas vitrines das soberbas lojas... Igualdade social! Está aí um programa para ser implantado! O bolsa-natal...

Concluindo, lembro aqui parte do poema Meu Presépio, do grande poeta Jacob: “Mas, Deus é um instante que não passa! / Porque se o mal persiste e o bem se atrasa, / Ele sempre se encontra em nossa casa.”

Maria Granzoto da Silva


Realização



5 comentários:

  1. you are invited to follow my blog

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  2. Okay, Steve, thanks for the invitation. We send Christmas greetings!
    ArtCulturalBrasil

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  3. parabens, um blog muito bom, continue assim.

    http://danbrandao.blogspot.com

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  4. danbrandão,
    agradecemos o incentivo com votos felizes de Boas Festas!

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  5. Anônimo09:22

    A poesia "Natal na Rua da Miséria" soa aos nossos ouvidos como carrilhões bélicos, se lida em voz alta, e se assemelha à trevas do Inferno, se lida em silencioso respeito à miséria alheia; como distinguir entre os maltrapilhos que disputam um churrasco de ratazanas seres humanos como nós? Lá, entre as sombras das noites que a tudo disfarça, se escondem por becos e ruas fétidas sombras de gentes que copiam os fantasmas das óperas bufas.
    Eis o belo quadro que o nosso sistema social apresenta como um espetáculo não pago aos olhos que passam sem "ver" a verdade de um país nocivo a esses párias. Na verdade, miséria alguma dá Ibope... Engano engenhoso de um títere mal assombrado que cruza nossos céus em um super jato; ele tirou da miséria o seu índice de 87% de popularidade e posa, diante de câmeras de TVs, como um falso Napoleão tupiniquim em cuja mesa, em seu Palácio, farta se acha de guloseimas para os amigos da hora. E os jornais estampam as TVs gritam a todo pulmão e as revistas alardeiam: "Temos o nosso estadista maior, o melhor Presidente que o país já viu nascer, o amigo dos pobres que acabou com a pobreza dentro dos limites de nossa pátria."
    Onde, pois, colocar esses "artistas" que fingem a fome, que pervagam as noites à cata de "comida" e, não a achando, se satisfaz a um churrasco de ratazanas? Pode ser um texto exagerado? Um texto para abalar as estruturas sociais, só por brinquedo? Não! Na famosa seca nordestina de 1898, meu avô Machado e seus filhos caçavam calangos e lagartixas, que viviam em mangueiras, para se alimentarem. Ratos são comidos na China, normalmente. Por que não num Brasil de fome escondida, de misérias escamoteadas e de falta total de vergonha de nossas autoridades? Grande esse poema porque traduz a verdade absoluta da atual situação desse nosso Brasil, mais uma vez enganada pela mídia mal intencionada e disposta a receber em suas mãos as verbas "tapa bocas" que o atual governo distribui a mancheias.

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