Visite nosso faceArtCulturalBrasil

UMA CIDADE SEM MEMÓRIA CULTURAL É UMA CIDADE SEM FUTURO HISTÓRICO

Gilberto Vaz de Melo


Mar de Espanha - MG

1952
“Uma Poesia de Amor...”
-Te amo!
(Gilberto Vaz de Melo)
Com a publicação do seu último livro “Versos Intemporais” o poeta Gilberto Vaz de Melo dá-nos a impressão de estar rematando uma trilogia, cuja temática em comum é o amor, ou o ato em si de o praticar dentro das suas diversas maneiras de ser. Incorporar e tentar entender este sentimento de êxtase que acomete a alma humana, por vezes fortalecendo a sua essência ou sorvendo dela a energia contida, são as propostas prioritárias que o poeta apresenta nessas folhas que ora tenho a honra de prefaciar. Este conjunto de páginas, divididos nos três volumes desta edição, é-nos arremessado sem a dramatização dos sentimentos piegas: o poeta desvia-se, de forma elegante, das idéias que possam levar o leitor à trilha vulgar dos versos merencórios e corriqueiros, que a proposição do assunto forçosamente atrai para si, e que já foram usados em demasia pelos outros escritores que discorreram sobre o tema. Nesta obra o mito de Eros é usado pelo poeta como libido para transformar letras em frases, frases em versos e versos em estrofes, e funciona tão-só, como maneira de ir mais adiante na evocação dos caprichos da imaginação com a faculdade de formar imagens antes não percebidas. À vista disso, é com esta combinação de novas idéias que ele comunica a seus leitores os variados dialetos que se encaixam na linguagem dessa matéria que diz respeito exclusivo ao espírito humano. Distante de qualquer emoção flébil na organização de suas idéias o poeta faz tanger o seu coração soltando os seus versos dissecados de dores ou de alegrias e o seu coração, que certamente bate pela ventura da sorte e ao acaso da adversidade, ressoa a sua poesia sem deixar nenhuma predição, como não se importasse se a fortuna (ou a desesperança) viesse amanhecer com ele no dia seguinte. Esse deslocamento de sentimentos, de um coração para o outro, causado pela poesia e gerenciado pelo poeta é a principal proposta que Gilberto Vaz de Melo nos apresenta em seus “Versos Intemporais”. É um poeta de frases surpreendentes. Tem a formação do escritor modernista, mas com a lógica dos simbolistas; e mesmo sem usar métrica nos seus versos ele tem a virtude da cadência das palavras, e sabe como e quando colocá-las, porque conhece os seus efeitos e os seus impactos. Num só verso ele é capaz de concluir uma idéia como fez no seu poema “Uma Poesia de Amor...” Compõe poemas de estilos tão diferentes um do outro: ora realistas, ora românticos, ora simbolistas do quotidiano, mas deixa em cada um deles a expressão da palavra generosa, a elegância do pensador nobre que não tropeça para não arranhar a idéia, nem mesmo quando usa uma ironia requintada para sublinhar um pensamento de discórdia ao que ofende o que sua dignidade rejeita e ao que transgride o que seu espírito não suporta. Gilberto Vaz de Melo sempre foi um colaborador da cultura de Juiz de Fora em vários setores, e agora, depois de acumular mais versos em sua vasta bagagem literária, ele surge, para satisfação dos seus inúmeros admiradores e leitores, independente como o pássaro que alça largos e elevados vôos, trazendo consigo seus cadernos de anotações poéticas para com eles editar, num só livro, uma grande obra que certamente ficará em nossos corações. O poeta de “Versos Intemporais” ao dividir sua obra em três etapas cronológicas, começando pelo ano de 1979, data em que publicou seu primeiro livro, depurou, de lá para cá, o seu pensamento de poeta. Há de notar-se, claramente, no desfolhar de suas páginas uma metamorfose poética, suavemente progressiva; uma elevação mercurial do raciocínio de um jovem poeta - que observou incrédulo o período de uma ditadura militar, um regime duro para o meio intelectual, e pior ainda: aos olhos estupefatos de um recém adolescente para o gradual amadurecimento do poeta adulto - dentro de si mesmo - diante dos acontecimentos que se sucederam no decorrer dos anos. Da flama do inquieto jovem ao equilíbrio do homem maduro as décadas registraram sua poesia nessas páginas que o poeta nos apresenta.

...

Balcões
Quantas cervejas tenho tomado ultimamente...
Cervejas quentes, inconseqüentes,
Sem qualquer teor de novos descobrimentos,
Simplesmente cervejas
Que se destilam ociosamente
Pelas gargantas dos bares
De minha convivência...
Preciso urgentemente
De um bom copo d'água!
...
Inércia
Assim me sinto quando Fixo meu olhar ao teu...
Olho-te e tamanha é minha ternura por ti
Que meus nervos se contraem....
meus sentidos se perdem
E minha voz se cala
Sem nada dizer-te!
Carrego meu corpo ferido,
Em meus próprios braços...
E deito-o em um canto qualquer.
Pela manhã, embriagado pelos meus sonhos
Desperto-me,
E meus lábios covardemente só conseguem soletrar:
Covarde...covarde...covarde!
...
Batons
De todos os sabores
Que com você experimentei:
Morango, cereja, uva,
Tutti-frutti e framboesa,
Não encontrei melhor sabor
Que sua pura saliva,
A percorrer minha boca árida de sentimentos
Para saciar,
Toda sede de amor,
Dos meus lábios...
Minha língua,
Minha garganta.
...

Certeza

Quero-te como quero em todas as manhãs
O vento frio penetrando em meu quarto
E despertando-me em sensação de saudades.
Quero-te como quero um jardim constante
Exalando dos meus poros
O odor da vida e da perpetuidade.
Quero-te como o impossível preso em minhas mãos
Para fazer de ti o motivo eterno de meus sonhos.
Quero-te como quem quer somente para si,
O abraço maior de todas as emoções.
Quero-te assim, acordando-me sempre
Deste meu sonho, em sua breve chegada.
...
Loucuras

Ele veio de mansinho....
Acariciou meus seios e,
Com suas garras de veludo
Aprisionou meus braços!
Com seus beijos... desceu por meu ventre.
E eu,
Carente de tanta ternura
Não evitei libertar-me de tamanha doçura
Que saía como mel de seus lábios
Penetrando-me por inteira...
Em uma mistura de amor e tortura.
...
De Repente Tanto

Este teu amor
Me encanta tanto
No mesmo tanto
Que a outros já encantou.
Desperta-me saudades tantas
No mesmo tanto
Que em outros corações já despertou.
Este nosso amor repentino
De juras secretas,
Cenas incertas,
Se repete no mesmo tanto
Tantas outras noites tantas...
De tantos desejos,
Ao certo
Que teu corpo absorveu!
Falo do meu sentimento tanto,
Um tanto ainda sem tamanho
Esperando o tanto necessário,
Que me abrigue de verdade
No espaço tanto
De dimensão exata
Onde caiba somente o meu tanto
Em teu coração.
...
Desejos

Não te prometo amor eterno,
Mas tudo farei que assim seja.
Não te prometo noites de rainha,
Mas serei um castelo para o teu abrigo.
Não te prometo o gozo de teus sonhos,
Mas entregarei meu corpo para teus desejos e fantasias.
A luz do túnel talvez eu não a tenha,
Mas manterei acesa a chama de tua procura.
Por fim,
Posso não ser o teu conto de fadas,
Mas prometo
Escrever o enredo e o final desejado
Para tua fábula de amor!
...
Pecado Perfeito

Quero-lhe inconfessável
Aprisionada em meu peito,
Nesse meu amor de intensos desejos...
mas com tantos defeitos:
Que tenho medo de lhe afugentar.
Quero-lhe imperfeita
Refém dos seus próprios medos,
Mostrando-se insuspeita
Por pecados tão meigos;
(...e tantas outras almas não conhecem este pecar!)
Quero-lhe, e o que faço...
se o meu "querer" é esperar,
Por este pecado perfeito
Que se esconde em nosso olhar?
...
Domingo
De guarda-chuvas na mão
O velho caminha sorridente
Por entre os transeuntes
Que não leram os jornais.

As nuvens,
Em um complô de traição
Vão se embora!

O velho, em depressão profunda,
Se recolhe
E não mais assiste televisão
...
Se Não Houver Amanhã
Se não houver amanhã?
Talvez tenhamos(com) vividos
Um amor pela metade
Sonhos sem (com)seqüências
Mera paixão de puberdade.

Se não houver amanhã?
Deixaremos para trás
A esperada briga caseira
A saudade saideira,
Nossos gozos secretos
Desta paixão proibida.
Quem sabe,
Um filho, ao certo,
Deixará de nascer ?

Se não houver amanhã...
Teremos vividos
Em um casulo perpétuo,
Como duas larvas,
Dois pequenos insetos
Que jamais se aventuraram a voar !!!
...
Espuma

Quando penso
Em saborear o último gole de minha cerveja,
Inesperadamente
Me vem a lembrança de você,
E meus lábios na ânsia de seu sabor
Se molham na pronúncia de seu nome.
Mais uma vez,
Retorno ao primeiro copo...
E assim despercebidamente,
Minha saudade vai mergulhando
Na espuma amarga
De mais um inesperado porre.
...
Taquicardia
Minha taquicardia
cada dia
Pior fica.
E quanto pior
Melhor eu fico.
Quanto mais me incomoda
Mais perto
De você me sinto!
...
Temporais
Sobrevivi às tempestades...
Ao céu escuro de todas as bocas
Que um dia à minha mesa se apresentaram
E saborearam de minhas palavras.
Sobrevivi aos tornados
Aos furacões impiedosos
Que cruzaram minha estrada
Empoeiraram minha visão e
Cegaram-me temporariamente
Para que eu não presenciasse
O tenebroso sorriso da falsidade.
Sobrevivi ao naufrágio
Em meu mar de lágrimas
Que por tantas noites
Inundaram meu travesseiro,
Meu amigo derradeiro,
Que me abraçava por inteiro
Tentando me escutar.
Sobrevivi, e a ninguém cobro nada...
Fui filho da tempestade
E hoje o sol é minha cara-metade
Que iluminou meus passos
Na escuridão das sombras
Que me acompanhavam.
...
Eu, Réu Poeta

Eu, réu poeta não canto: assobio..
Não durmo: repouso
Não minto: iludo
Não faço sexo: amo.
Não grito: sussurro.
Não traio: erro.
Não penso: sonho
Não choro: soluço.
Não olho: observo.
Não peco: descuido-me.
Não falo: declamo.
Não me embriago: Fico alto.
Não morrerei.
Eu, réu poeta
Não me apaixono:
...simplesmente sofro !!!
...
Último Ato

Bebeu do meu vinho
Para entorpecer tua censura.
Reanimou meu corpo
Para matar teus desejos.
Absorveu com meus lábios
As tuas lágrimas do olhar
E estampou o meu sorriso
Na máscara da tua tristeza

Usou minhas palavras
Para escrever teu poema
E guardou meu retrato
Como troféu da tua aventura.

Por fim, saciada dos teus caprichos,
Escarrou na cama
Teu último gozo possível

Beijou-me a face
Rescussitando a Jesus...
Fantasiou-se ao espelho
E para sempre foi embora.
...
Companheiro
(Para Fernando Gabeira)
Volte companheiro,
De braços abertos
Para aqueles que não lhe negaram
O polegar direito.
Volte companheiro,
Consciente do fracasso
Daqueles que ficaram,
Não pelo medo, mas, talvez, pela formação primária
Do canto brasileiro.
Não se importe se nada mudou
Nas cabeças dos que tiveram,
Quem sabe, a felicidade
De não sofrer uma saudade distante.
Volte companheiro,
E seja bem-vindo
A meu coração
Covarde, confesso,
Não pelo medo do sofrimento,
Mas pela infelicidade
De em minha idade
Ainda não saber o porquê
De sua bandeira!

...
Do Livro Face Oculta - 1979

...

2 comentários:

  1. Anônimo23:37

    Seus poemas,emocionam....Meu maravilhoso poeta Gilberto!!!

    ResponderExcluir
  2. AGRADEÇO AO ARTCULTURALBRASIL O APOIO QUE TENHO RECEBIDO DE TODOS VOCÊS.UM ABRAÇO DO ADMIRADOR DESTE MAIS COMPLETO BLOG DA LITERATURA BRASILEIRA.

    ResponderExcluir